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sábado, 10 de novembro de 2012

Do início do fim.

- Me diz! Vai, me diz!


(silêncio)


- Eu não sei.

(silêncio)

- Porra! Diz, diz pra mim!
- Eu... eu não sei, porra! Não sei!
- Porra! Você de novo dizendo isso! Não é possível que você não saiba.
- Se eu soubesse te diria, mas não sei!


(silêncio)


- Não é possível. Me responde! Diz, diz o que você quer?
.
.
(silêncio)
.
.
...O que você quer de mim?

(...)

Era sempre a mesma pergunta. Busted. Sempre colocada contra a parede com a boa e velha pergunta: o que ela quer, afinal? Não sabe, responde. E de fato, não sabia.

E sabia que seu não saber não se resolveria lendo três ou quatro bons livros, como se isso bastasse para entender e ter respostas.

Sabia que o que importava não estava na pergunta “o que quer?”, ou na sua resposta "não sei". Era algo de seu comportamento, suas ações, suas escolhas nas diferentes vidas-em-relação que levavam a repetição da maldita cena com a mesma pergunta: o que você quer? 


Então era mais um fim que começava de novo. Mais um adeus sem saber porquê, e era justamente porque não sabia que o adeus vinha sem saber porquê. 

Mais um dia que anteciparia longos dias...




terça-feira, 30 de outubro de 2012

Outono Fora-de-Temporada

Eu aceito a nossa condição de algo indefinido, incerto, impreciso - contanto que não me perca nisso, e que isso fuja do meu controle. Não está nos meus planos perder o controle novamente. E não é porque eu tenha problemas em me apaixonar sem saber se daquela paixão intensa vai sair um voo ou um tombo - acredite, não tenho problema algum com isso e você sabe, pois você já foi cúmplice, vítima e culpado desse incontrolável querer.

A questão é se jogar sabendo que virá o tombo, sem a mínima possibilidade de, mesmo que por pouco tempo, mesmo que por poucos centímetros, conseguir elevar os pés do chão, que fosse para um voo de galinha. Nós não temos sequer mais asas, meu amor. Elas foram castradas há tempos. Então deixe que a nossa memória de uma bela história permaneça como aquela chama sempre acesa. Não vamos deixar um triste presente vencer um bonito passado. As poeiras, joguemos pra debaixo do tapete, e será nosso segredinho.

Se puder, deixa eu ser aquela-que-você-sempre-amou. Esse lugar é seguro e quentinho, e gosto de recorrer a ele nos dias de frio quando não há ninguém para me servir um chocolate quente gostoso.
Se quiser, conte comigo para tarefas práticas como acompanhar para um cinema ou para um café. Mas não conte comigo para suprir a carência de um carinho ou de um amor gostoso, pois as lágrimas derrubadas por ti já secaram tudo de vivo que tinha em mim.

Agora virei outono fora-de-temporada.

sábado, 27 de outubro de 2012

no ponto de ônibus.


- boa noite.
- boa noite. (deixa eu te contar... conheci alguém, não é do tipo que me apaixono, o que só me deixou mais intrigada - o que eu estava querendo com ele, afinal? nos conhecemos em outra cidade e nos reencontramos agora, nessa cidade que não é nossa é é eu não sou daqui e, pensando agora, talvez ele seja que nem eu, meio sem cidade, de vários lugares - isso me lembra marx, "os trabalhadores não tem pátria", mas aí fica pra outra hora esse papo, porque eu queria mesmo era contar o que aconteceu agora... foi o olhar, acredita que clichê ora onde já se viu a essa altura da vida na vida moderna que vivemos alguém se encantar numa troca de olhares? eu não sei por quanto tempo nos olhamos até que trocamos algumas palavras havia outras pessoas na roda mas eu só queria saber quem era ele e daonde vinha e o que fazia de intruso naquela terra que antes chamava de minha; é, pois é, a gente se conheceu aonde até bem pouco tempo eu entendia como a minha cidade... sabe, pra você eu vou contar que eu não sei há quanto tempo eu não ficava com frio na barriga por alguém eu não sei dizer sei que se não tivesse o cigarro eu poderia até estar tremendo com um nervosinho bom quando nos falamos pela primeira vez e as pessoas e a música e a festa em volta e aquele que já amei e amigos que não via há meses e eu só queria virar e falar com pinta de mulher decidida "ei, e quando é que a gente vai prum canto mais sossegado, heim?"  não, não, eu não diria isso eu sei que não onde já se viu estou vermelha só de confessar isso pra você. eu diria "e aí? a gente já se conhece? tenho a impressão de que já te vi..." ai não que coisa mais boba coisa de gente sem criatividade. eu sei que não disse nada disso mas lembro de dizer duas ou três besteirinhas que me fizeram pensar porque eu estava dizendo aquelas coisas e agindo daquela forma e eu não sei era como se fosse outra pessoa ali e sei que a gente foi se encontrar aqui e aí é uma longa história mas eu estava agora com ele e a gente se beijou loucamente, sabe, demorou, antes disso conversamos bastante e foi bacana e no começo ficou um suspense e eu achei que era mais uma dessas coisas que a gente bota uma expectativa danada e depois não consegue viver a altura do que esperava mas não foi e a gente se beijou loucamente como se não houvesse amanhã ou hoje ou ontem ou tempo. desculpa eu nem te conheço mas eu queria contar pra alguém porque foi uma coisa tão maluca e gostosa que me fez sentir tão viva tão bem e pensando bem não foi maluca porque aquilo no fim das contas era vida viva mas ainda assim eu saí, eu saí rápido com pressa, porque ele mora lá longe e não interessa o lá agora mas interessa que o lá é longe e para não alimentar mais fantasias eu deletei o telefone da agenda. eu nem havia chegado no térreo e já tinha sido apagado e eu gosto de guardar essas coisas mensagens coisinhas sabe. mas apaguei todos os rastros dele menos os que eles deixou no meu corpo que não dá pra apagar e não foi por raiva e não foi porque eram mensagens ruins eram bonitas mas pareceu necessário deletar e talvez seja algo que eu só entenda depois mas na verdade não precisaria deixar porque ele ficou na minha cabeça e não sei se sairá tão cedo e...)
- que demora, heim?
- é. nem fala.
- tá esperando o 56?
- sim. você também?
- sim...
- domingo é difícil.
- nem fala... se eles ainda tivessem um horário regular.
- é...

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

uma semana, cinco dias e.

não procurava ninguém. não era carência de um amor nem de sexo. não era tédio. não era mais uma brincadeira. eu não buscava nada - e dizem que as boas histórias começam quando nada se procura. - mas teus olhos... teus olhos me confessaram tanta coisa que jamais poderia ignorá-los, ou parar de deixar que eles não parassem de se confessar pra mim. e se uma semana depois, você se abriria - em outros cenários - contando histórias, nem perceberia que não era necessário descrever-se ou se explicar. tu já tinha se despido e confessado tanta, tanta coisa.

naquele primeiro dia eu vi um homem e um menino. uma intensa sinceridade. olhos sinceros que eu queria para mim. os olhos e rosto marcados de momentos, histórias, sentimentos. olhos e rosto que denunciavam um homem que só iria se mostrar - a ele e a sua sinceridade - se eu merecesse.
e a verdade é que eu escolhi, antes mesmo de decidir escolher, fazer por merecer. eu escolhi sem nem querer, sem nem ver aonde estava pisando. de repente, eu quis saber. saber o que aqueles olhos poderiam contar, ensinar. o que poderia ser possível viver ao lado dessa pessoa que tanto olhava a tudo, com ares de que a cada olhar aprendia algo novo. olhares que não denunciavam se era tristeza ou alegria - ultrapassavam o clichê dos olhos dos comuns que passam despercebidos na fila do supermercado, nos bancos do metrô, na rua, no trabalho, e que às vezes até nos encantamos ou apaixonamos seja pelo belo rosto, pela bela bunda, ou o horóscopo. olhares que mostravam que o que se buscava estava pra além da tristeza ou da alegria. e eu queria mergulhar nessa tua busca e fazer dela minha - nossa.

de repente eu quis ser essa mulher, para quem tu contaria teus mais sujos e belos segredos.
de repente eu queria aprender, e queria ensinar também.
de repente, eu queria me sentir mais viva com tua vida e queria que me convidasse pra te deixar mais vivo também..
de repente meus olhos te diziam sim, e eu não podia parar de dizer sim, sim, sim.

e se você hoje chama de molecagem, de brincadeira, eu da forma mais declaradamente e deliciosamente covarde deixo pensar assim. pra mim, pra você, pra ela.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

eu não morreria por você

bota água pro café! escuta esse cd. vamos dormir? acorda que tá sol. fila do pão. férias na argentina. dá uma olhada nesse trecho aqui. skol ou brahma? estamos atrasados! o que tá pensando agora?acabou o cigarro. esse teu jeito... vamos na sessão das 21h. você não sabe o que aconteceu hoje!

Eu não morreria por você. Nosso papo não vai por aí. Falar de você, e não falar de vida, erro enorme de se cometer. Eu faria planos pruma vida - ou duas, se assim coubesse.


Você me faz falar, escrever. você me deixa a vontade pra abrir a boca e contar histórias... o que torna as coisas difíceis porque é uma delicia também ficar em silencio ouvindo tuas historias, ou quando desemboca a falar e falar besteiras, que no meio delas se escondem um jeito bonito de dizer que gosta de mim.

De vez em quando eu tiro a casca. Não é fácil sustentá-la o tempo inteiro. É gostoso ficar escondida, mas um desastre não ser encontrada de vez em quando.
Eu te agradeço por ter me encontrado, por mais que eu esteja nessa fase de tamanha insistência em sustentar um esconderijo - sussurro eu, com tom de quem diz covarde: saudade.



Você me bota na vida de novo. Você me deixa grande ou pequena, o que sirva pra fazer eu ir mais além.

Você bota cor na tela cinza.
Eu não morreria por você.
Eu, certamente, viveria mais.

sábado, 1 de setembro de 2012

à flor da pele

há os dias em que se busca simplesmente cumprir as ta-re-fas. e não se trata de dias frios e mecânicos, mas de saber a hora em que os compromissos e as responsabilidades devem consumir cada gota da sua força para que saiam, para que aconteçam.
mas há aqueles dias em que há mais sentimento (sentido?) em tudo - mais alegria, mais tristeza, mais dor, mais amor. estar à flor da pele, sentindo que uma brisa mais forte seria capaz de desmoronar em lágrimas, em cacos, em seja-lá-o-que. às vezes é prender o nariz e mergulhar, mergulhar fundo sabe lá onde, sabe lá porquê. - mas acontece que a gente sabe - a gente sempre sabe - aonde e porquê.
existe o dia que se distribuir em cacos é permitido, principalmente se tiver alguém para recolhê-los.

a cabeça gira. é novo passar por uma experiência que traz tantos pensamentos e não tantos ouvintes. sufocada com ideias, planos, compreensões, dúvidas. em meio a tanta gente, sentir-se só. e em meio a solidão, sentir-se um clichê. um clichê que se sente só em meio a uma multidão.

- - -
pausa

novos sabores levados a boca, novas texturas ousando percorrer pelas mãos. novo som, novo cenário. novo corpo que abraça corpo novo, nova boca que encosta na boca nova, de sabor novo. 
a fruta doce demais, tão doce quanto o toque e o mar salgado expulsa o casal.
- aqui não. - dizia o mar, moralista e metido, que mantinha a ordem na praia. uma praia para família - era o que acusavam as pessoas em volta.
o turismo tampouco era convidativo - sabia que ali não era lugar dessas coisas. ali não tinha espaço para outras riquezas que não as em dólares.
a árvore gigante tampouco queria abrigar amor algum. tinha pressa pra fechar, tinha preço para entrar. os olhos atentos dos comerciantes pouco ligavam para os olhos cheios de desejo. estavam ocupados demais com seus próprios desejos - estes tampoucos relacionados a amor ou paixão. estavam ávidos por um comprador disposto a deixar um bom dinheiro. 
"roubam-me a cidade, pois eu roubo-lhes o dinheiro" - pensam.
respiro fundo para não deixar que este olhar e a cidade tomada pelo consumo me consuma. 
"é a pausa" - tento memorizar, e me disciplinar para  não perder o foco, cujo foco era perder o foco.

então o casal continua a procura de um refúgio.

- - -
continuação da pausa


pés que caminham seguindo a areia que corre. mão que encontra mão, mar que encontra pés. e as bocas que se encontram novamente e tudo pára. pára?!?!
não, não, não! tudo gira. e a cada giro, era uma coisa que saía da cabeça. aprendera enfim um novo jeito de meditar. o mar engolia os pés e as bocas buscavam engolir umas às outras, num desejo súbito de fazer tudo sumir e nada mais além daquilo existir. o tempo que durou, não se sabe - cinco, dez, trinta minutos? 
de sons, eram apenas os ventos alísios que vinham em alguns momentos, e a respiração - necessária e pontual. os cabelos e o mar tentavam roubar a atenção, chamar de volta a realidade e tudo aquilo: o mar, o beijo, os ventos alísios, os cabelos, os pés, as mãos, os toques - oscilando entre tímidos e ousados - se somavam em uma linda orquestra silenciosa.
do céu fez surgir um arco íris, e a chuva lembrou que a alegria tem tempo de acabar.

fim da pausa
- - -

e sabe lá porquê, olhar pro mar traz reflexões longes, distantes, pra além de quando o céu se mistura com o oceano. mas é fechar os olhos, respirar fundo e levantar. tirar a areia que se juntou ao corpo, respirar fundo novamente e voltar:
tem mais ta-re-fa pra fazer.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Quanto pesa uma bandeira? - parte 2.




As noites más dormidas, os não almoços e não jantares. Cruzar Estados, às vezes oceanos. As manhãs e tardes de passeio substituídas por assembleias e atos. Às vezes cheio, às vezes vazio.

Daí chega o dia. E uma vitória. Duas. Três.

E mais um que se convence que a bandeira deve ser maior. E mais uma. Dois, duas.  Três, milhares...
Os tais milhares.
Amanhã vai ser maior.
Amanhã vai ser outro dia.

E que o futuro seja de liberdade plena, enfim.




- - -

E olhando o oceano e a cidade de Natal, em meio a uma conversa com um companheiro, sobre as lutas e a dureza da vida, pensava: 
"Mas eles tomarão a cidade."

"É bem possível, Dario, que sejamos fuzilados no fim de toda essa história. Duvido de hoje e de nós. Você, ontem você transportava fardos no porto. Curvado sob a pesada carga, você seguia com um passo elástico  as tábuas oscilantes entre o cais e a entrecoberta de um cargueiro. Eu, eu arrastava correntes. Expressão literária, Dario, pois só se usa uma matrícula, mas é igualmente pesada. Nosso velho Ribas do comitê vendia  colarinhos postiços em Valença. Portez empregava seus dias a moer pedregulhos em mós mecânicas ou a perfurar rodas dentadas de aço. O que fazia Miro com sua suavidade e sua musculatura felina? Engraxava máquinas num porão de Gracia. Na verdade, somos escravos. Tomemos esta cidade, mas olhe-a, esta cidade esplêndida, olhe essas luzes, esses fogos, escute esses sons magníficos - carros, bondes, músicas, vozes, cantos de pássaros e passos, passo e o murmúrio indiscernível dos veludos, das sedas -, tomar esta cidade com estas mãos aqui, nossas mãos, é possível? Você riria bastante, Dario, se eu lhe falasse assim em voz alta... Você diria, abrindo suas grandes mãos peludas, fraternais e sólidas: ´Sinto-me capaz de tomar tudo. Tudo.´. Assim sentimo-nos imortais até o momento em que não sentimos mais nada. E a vida continua quando a gotícula que somos retorna ao oceano. Minha confiança aqui se reúne à sua. O amanhã é grande. Não teremos amadurecido em vão essa conquista. Esta cidade será tomada, se não por nossas mãos, pelo menos por mãos parecidas com as nossas, mas mais fortes. Mais fortes talvez por terem se endurecido mais, devido à nossa própria fraqueza. Se somos vencidos, outros homens, infinitamente diferentes de nós, infinitamente parecido conosco, descerão esta rambla num crepúsculo semelhante, daqui a dez anos, daqui a vinte anos, isso realmente não tem nenhuma importância, meditando sobre a mesma conquista: pensarão talvez em nosso sangue. Já imagino vê-los e penso no sangue deles que também correrá. Mas eles tomarão a cidade."
Victor Serge, Memórias de um Revolucionário 
(esse trecho é um trecho que ele escreve em "Meditação sobre a Conquista")


O primeiro texto com esse título, clicando aqui.

terça-feira, 12 de junho de 2012

um, dois clichês

 você que tem
nas tuas mãos
meu choro de mulher
tem meu ver
o meu sonhar, o que quiser"

- eu sou um clichê
ela assume, quase como um desabafo. se é pra ser, que seja de forma assumida. como se tivesse saído do armário - o armário dos alternativos bem-resolvidos e autênticos. 
- gosto de por-do-sol na praia, gosto de arrancar os pedacinhos de cola na mão e às vezes os coloco de propósito na mão. gosto de cantar no chuveiro, amo como se fosse a primeira e a última vez, sinto ciúmes... - ela continua, como se agora que havia assumido, o pior já teria se passado e então divertia-se enumerando seus pequenos grandes prazeres e suas pequenas grandes dores. 

e segue citando o fato de ser insatisfeita com seu corpo como toda mulher, de querer sim ser gostosa. que se preocupa com seu facebook. sua voz alterava enquanto elencava teus clichês e sorria.

um silêncio se fez, o rosto se fechou e esboçava então uma tristeza profunda, um certo desapontamento, uma frustração. como que pra terminar, respira fundo, e confessa, agora: sou mesmo um clichê. me faço de durona e decidida, tenho respostas prontas e ácidas, tenho cara de brava; quando o que quero é poder deitar no teu colo e não ter medo de ter medo, sabendo que estarás ao meu lado.

ele sorri do jeito meigo da moça. de prontidão, responde:
- você não é clichê. você é tipo único. 

um suspiro discreto. saber que ela não correspondia às idealizações construídas com o tempo por ele não era, de forma alguma, frustrante. apaixonou-se novamente, e agora pelo ser humano que ela era, pela sua beleza bruta, pela sua honestidade e porque, de fato, ela tinha os seus momentos típicos.

enfim, como um bom clichê, sentiu-se feliz por ser útil, torcendo para que ela deite em seu colo mais vezes - que seja todos os dias, que fosse por uma vida.
como dois clichês apaixonados, seguiram felizes, agora livres de receituários, já que os filmes clichês não contam como a história continua depois do final feliz.

domingo, 18 de março de 2012

rapidinhas

acordo
acordamos e tudo parecia estar tudo certo. parecíamos contentes, satisfeitos de notar que pensamos parecido - o que fez com que acordar não fosse tão difícil.
agora, acordo sozinha: me sinto perdida entre tantos casos omissos e sem você.

1,2,3...valendo!
vida profissional não tem se diferenciado muito da vida amorosa. nas primeiras possibilidades a gente se entrega,  cheia de ilusão... até que. vê que é difícil, se frustra, não rola. e aí você começa a esperar um tempo até se sentir feliz. olha, desconfiada, pra nova possibilidade que surge esperando um sinal mais claro dizendo: certo, é isso mesmo, pode comemorar, o lance é bom mesmo.

caminho
procurava a felicidade. até que viu que isso é muito. passou a procurar por conforto. um pouco lá, um pouco acolá, um pouco aqui... nada. nenhum lugar, nem ninguém, nem nada. no entanto, o caminho para outro lugar, outra pessoa e outra coisa qualquer - a promessa que a possibilidade reserva - trazia uma sensação incrível.
alegria para ela, era ir. então passou a fazer longas viagens.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

choveu, molhou, parou, secou.

e de repente era como se nada tivesse acontecido.

poderia ser mais frequente do que o comum naquela cidade quente, mas para ela aquilo nunca fez sentido: todo passado deixa uma marca, e como pode chover tanto e a vida seguir, assim? há de ter ficado alguém com seu cabelo molhado, ou um guarda chuva que não resistiu e quebrou.

desde criança guarda pequenas coisas, anota alguns detalhes, para que nunca se esqueça das dores e alegrias, mesmo as pequenas. medo de esquecer, medo de não conseguir transformar em aprendizado aquilo que viveu, sentiu, sonhou. talvez era isso. cuidava de sua memória como quem tentava cuidar de seu futuro.

e então amou uma vez. e guardou cada memória. e amou a segunda, a terceira, a quarta... de repente tantas histórias foram se juntando, e a bagagem já era pesada demais para se arrastar. mas insistia em levar tudo - os papéis, os sorrisos, as lágrimas, os presentes, as músicas, os filmes, os livros, as conversas, os bilhetes, as saudades, os ingressos, embrulhos, imbróglios. de repente o passado foi sufocando todas as possíveis novidades fazendo com que elas fossem pra um "lugar comum" do gostar. de repente ninguém tinha mais disposição pra carregar com ela aquela bagagem pesada de velhas novas histórias.

e então quando amou de novo tentou experimentar lançar-se um pouco no desconhecido. se permitiu conhecer uma nova canção junto com. a ler um novo poema. a escrever uma nova história, por fim (ou começo?). decidiu por não carregar mais aquela bagagem pesada. algumas coisas jogou fora, outras guardou numa caixinha velha, que talvez nunca mais abra, mas é bom saber que algumas memórias ficaram ali guardadas.

até que então, amou como nunca havia amado antes.
enfim, permitiu outrar-se. não era a proposta, desde o início?

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

e falando de novo em amor...

Mapas.

mapa que eu detesto duas vezes: papel que constata os quilômetros que nos separa. papel que, por ele e outras coisas, te fez ir pra tantos quilômetros longe.

mas detestar mapas, que coisa tola! se não fosse o mapa, se não fosse a tua economia solidária, o meu marxismo... se não fosse o sol, se não fosse torto, se não tivesse o desencontro... talvez a gente não teria se encontrado. é isso que falamos, para nos conformar ou para tornar o negócio mais lógico. não foi destino, mas uma série de pequenas histórias fragmentadas, ou várias histórias que seguem uma linha lógica que fizeram, há pouco mais de um mês, tua geografia e a minha psicologia se encontrarem.

mapas. eu nunca havia reparado neles direito, e agora eu olho pra tentar entender o que te fascina tanto nesse pedaço de papel.

Posso até me acostumar da gente se divertir...

e se temos três dias, ou se esse ano tem mais feriados, ou se os nossos aniversários caem em sábados. e se temos mais um ou dois encontros ou se é pra sempre. e se faltam dez dias, nove ou oito.
acho que posso me acostumar, se todo reencontro tiver sempre cara de sábado. se tiver sol, água de coco. se tiver colo. se tiver corpo. se tiver nossos beijos com olhos, bocas, mãos, pés, pernas.
e a saudade só se torna suportável quando se sabe que em breve o reencontro a matará, sufocará e deixará espaço só para o carinho.

e por falar em diálogo... (resposta)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

quanto pesa uma bandeira?

há os dias alegres, em que digo: a solidariedade, o companheirismo, a força, o entendimento de não estar sozinho, indignado com tamanhos absurdos do mundo. a sensação de vitória, de conquista de um grupo, de uma  classe, de um povo. a sensação de ter escrito a história com as próprias mãos.

mas não, não venho de dias alegres. não são tempos alegres. para além do espelho, vejo olhos cansados. olho, braço, perna, corpos. corpos cansados resistindo, mantendo erguida aquela - ou aquelas - bandeiras.
é tempo de corpo cansado.
             de companheiros ameaçados, violentados, desaparecidos, assassinados.
             de dor de quem não come bem, não dorme bem, não vive bem há tempos.

há os dias alegres, em que leio aqueles que podem trazer experiências passadas, lições diversas de tempos distintos. dias de sair com as companheiras e companheiros em marcha, de puxar palavras de ordem com a força que não é tua, mas de todos aqueles.

mas não, não venho de dias alegres. tenho tido pouca força para o berro, pouco ânimo para os livros. é tempo de lembrar que isso não é uma brincadeira, ainda que há tempo para o riso. é tempo de lembrar que isso não é teoria e que isso acaba até em morte.

luta - ou guerra - de classes.
chamam de opção. opção de classe. é bonito, mas não sei bem como é feita essa escolha.
há erros, sem dúvida, dos dois lados.
há mãos, pernas, corpo sujo de sangue dos dois lados.

é uma luta, é uma guerra, que se espera? mas entre estar no meio daqueles que se sujam de sangue buscando a liberdade do povo e aqueles que o fazem para buscar silenciar aqueles que denunciam atrocidades, que buscam calar e sujeitar trabalhadoras e trabalhadores que buscam livrar-se de alguma forma da condição de exploração a qual são colocados brutalmente, eu fico com o primeiro grupo. opção de classe. é isso?

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

a história de nós dois - e se?

mensagens, cartas, presentes, poemas, fotografias, desenhos, músicas, filmes, memória, quadrinhos, bilhetes de cinema, passagens de ônibus e avião. o tempo vai passando e são diversas as lembranças, materiais e imateriais, que vamos juntando de amores-para-sempre. histórias, sejam elas novelas, crônicas, romances, documentários... às vezes é curto e intenso como um hai-kai. às vezes longo, belo e doloroso como uma ópera.

depois de tantos amores-para-sempre percebemos que os amores não são para sempre, ao mesmo tempo que o são. passamos pela vida de tanta gente, tanta gente passa por nossas vidas, e seguimos partindo e chegando em vidas alheias, assim como chegando e partindo estão as pessoas em nossas vidas. em algumas chegamos sem pedir licença, invadimos a casa, o coração, o corpo inteiro. e de repente vamos embora, deixando a escova de dente semi-usada e uma saudade imensa. às vezes uma conta de telefone pra pagar de ligações de amor e desamor.

os anos vão passando e a gente passa a se esforçar para lembrar de algumas pessoas, outras continuam aparecendo constantemente, todos os dias, na memória. tem as que ressurgem, retornam ao ouvir uma música ou ver um filme antigo. ou encontrar um bilhete de cinema velho ou um recado cotidiano num papel amarelado do tipo "fui comprar pão". e vem com aquele grande e pesado: "e se". "e se fosse ele?". "e se não era pra ter sido do jeito que foi?". "e se tentasse de outro jeito?".

"e se". "e se eu pudesse entrar na sua vida?" - nosso grande inimigo. é duro de aceitar que as coisas são como são, que a vida é bela pelos belos acasos e maldita por esses imprevistos e armadilhas também. sorriso bonito. carinho. troca de olhares. conversa agradável. grandes expectativas - "e se". "e se". "e se." e de repente é mais alguém que mora longe, que já tem outro alguém, e que, e que, e que. mais um "e se". mais um "talvez seja diferente". sempre é, nunca é.

às vezes, o coração pede uma trégua. um sossego. uma praia, um por do sol, uma água de coco, com alguém legal, que pareça ficar dessa vez. sem "e se". às vezes o coração só pede um pouquinho de certeza. só um pouquinho, nem que seja pra respirar um pouco dessa vida angustiante de incertezas e acasos e emoções. uns dias, um mês, um ano de alegria e segurança.

é só isso que ele pede.
é só isso que eu peço.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

um amor de faz tempo

a vida já é emocionante demais. confrontos, conflitos, grandes obras de arte que nos arrancam a respiração. compromissos, complicações. grandes amigos que nos fazem dar risada. companhias, começos e conclusões.
a vida em si já basta para ser aquilo que nos dá angústia, aperto, sofrimento, alegrias, simpatias, dores.
ao contrário do que os filmes de hollywood pregam, não quero alguém que me tire o ar - pra isso, já basta as violências que vivemos. não quero joguinhos amorosos, pisando num campo minado em que uma palavra e bum!, adeus relação. - de inseguro, já basta o futuro e as finanças.
eu quero pra ontem, pra agora, um amor de faz tempo.
que sabe que eu demoro pra dormir e que goste de me fazer companhia. que goste de ver filmes - e de dormir assistindo também. de alguém que não precise planejar um grande encontro, mas que faça das coisas cotidianas um grande evento - e pra isso não precisa muito. basta um sorriso, um carinho, um olhar. uma surpresa, ou uma brincadeirinha que faça com que a gente ria e que anos depois, sentados em um café, em algum lugar estrangeiro e a gente fale "se lembra daquele dia em que estávamos fazendo faxina e...", e dê risada da história.

a vida já é difícil demais pra ter que se preocupar com as coisas do coração. queria eu que estas fossem simples. conhecer alguém, que já venha com a escova de dente e com os pés descalços e a vontade de ficar o dia inteiro no sofá, com roupas confortáveis de ficar em casa. que já saiba aonde eu guardo os copos e que eu saiba que estará do meu lado cumprindo as grandes burocracias sociais - natal, ano novo, páscoa...
não precisa nem ser a mesma pessoa - não tenho problemas em variar ao longo da vida. só queria que elas aparecessem facilmente, tão facilmente quanto àqueles telefonemas oferecendo algum cartão de um banco qualquer. tão facilmente quanto relações que não levam a lugar algum, mas que de alguma forma a gente sustenta na esperança de.

um amor de faz tempo. ah, isso cairia tão bem hoje a noite...

* pra quem quiser ler uma possível resposta, clique aqui.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

nós

nós, nós, nós.


ultimamente é o teu assunto preferido. e cada vez que fala, sinto um aperto no peito, porque queria estar falando de nós - se nós, se tratasse de eu e você - companheira, companheiro na luta, no amor, na vida.

mas o nós que me cabe parece ser um tanto de nós que foram se fazendo e me amarrando e me prendendo e me envolvendo de forma que agora não consigo sair - nem sequer pra dar um passeio. me sinto como um fone de ouvido que por mais que haja um esforço de mantê-lo guardado desenrolado, quando menos se espera ele está emaranhado no bolso. queria eu poder me esconder por alguns instantes, em algum cantinho em que eu não me enrolasse com nada, nem comigo mesma.

nós. nós. nós.

eu e você é um nós que me liberta, e eu queria que esse nós tivesse a força para superar esses nós que me amarram, mas sem nossas mãos entrelaçadas - você está longe - fica mais difícil que nosso nós fale mais alto que outros nós.

você tem seus nós aí.
e eu meus nós aqui.

vou fugir por um tempo, pra outro país, pra ver se me desenrosco um pouco. no entanto, quando voltar, eles - os nós, não o nosso - já estarão no aeroporto, prontos pra me buscar, antes mesmo que você. por isso, peço baixinho, um pouco tímida, um pouco menina inconsequente, sabendo que seus nós também não são fáceis de serem desatados para vir formar o nosso nós e desatar meus nós: vem logo pra cá, me salva da selva. 

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

insônia de dezembro

diferente do ritmo acelerado do dia, a madrugada com insônia lhe reserva uma lentidão única. como se não houvesse tic tac no relógio, saboreia seus últimos prazeres que restam em sua casa. o penúltimo cigarro, o fim da garrafa de água gelada, o último chocolate. tenta não pensar que o fim do ano se aproxima e que todo fim de ano lhe reserva alguma morte inesperada de alguém querido. tenta descobrir quem será, como se assistisse a um filme de suspense, em que sabe que alguém daquele grupo de amigos morrerá. apesar dos pensamentos sombrios, sua cara nada expressa. o rosto é o mesmo rosto daquelas pessoas que circulam pelo metrô em horário de ida ou de volta de trabalho. um olhar de gado a espera da morte - que não sabe que espera a morte, pois parece não ter consciência disso nem de nada, mas que quem o assiste, assiste com pena.

a insônia de dezembro chegou. tentativas frustradas de telefonar para alguém. "merda de modo silencioso" - pensa. não conseguir falar com alguém parece dar mais solidão que não ter ninguém para quem ligar. pensa em ligar para aquele que antes acolhia as suas insônias. em seguida, pensa nas consequências disso. pensa em ligar para aquele que antes do outro de antes acolhia a sua insônia. pensa que ele jamais entenderia as consequências disso.

a insônia de dezembro chegou. pensa em tomar um banho. pensa em escrever algo. pensa em ler algo. pensa em sair e fazer algo - não, não, má ideia. assistir a um filme - talvez.
lembra de seu primeiro apartamento em santos, de suas primeiras insônias em santos. existia meio pacote de fandangos. não ter, seria evolução?

na semana anterior, o quarto cheio de roupas, papéis, garrafas, livros, apostilas passagens usadas, jornais, embalagens, crachás, bilhetes... um surto: de repente aquele quarto era eu. tantas coisas importantes, inúteis, foras do prazo de validade... tudo misturado, sem prioridade de importância.
na semana anterior, havia alguém que lentamente recolheu roupa por roupa. que empilhou os papéis - recém chegado na história, não sabia ainda dizer o que de lá não pertencia mais. havia uma paciência que não tinha nome. e quando o choro era alto, pacientemente parava de recolher e oferecia o colo, as mãos que massageavam o corpo. pouco a pouco, tornou o quarto e o corpo habitável. bom para ele, bom para ela.

começa a chegar a hora do despertador tocar e começar, então, mais um dia. pobre despertador, que dificilmente cumpre sua função. aquela que o tem como propriedade sempre se antecipa e seu toque torna-se mera formalidade.

mera formalidade. não é apenas o despertador que vive assim, afinal.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

o que não tem fim sempre acaba assim.

do que foi. foi?

novos horizontes
se não for isso, o que será?
quem constrói a ponte
não conhece o lado de lá
quero explodir as grades
e voar
não tenho pra onde ir
mas não quero ficar
suspender a queda livre
libertar
o que não tem fim sempre acaba assim
(novos horizontes, engenheiros)

e de repente percebo que o fim da faculdade é como o nosso fim. formalmente, as coisas acabaram. mas afinal, parece que não.
liberdade caminha junto com angústia, desconforto e insegurança.

sábado, 26 de novembro de 2011

Um novo jeito de contar a mesma e velha história - COMPLETO

essa não é mais uma história de amor.

Parte I - Os dez minutos que abalaram os mundos.

Era uma vez uma menina e um menino - porque toda história que se preze tem no seu enredo pelo menos duas pessoas que se apaixonam - que viviam em planetas diferentes.
Como todos nós sabemos, os planetas ficam circulando pelo universo, em algum ritmo que aí nem todos nós sabemos. A nossa história começa em um momento raro em que esses dois planetas - o do menino e o da menina - se alinham e, durante dez minutos, os olhos da menina cruzaram com os olhos do menino.
Foi de repente. Foi por acaso. Que belo acaso!
E foi carregado de alegria. Na hora, é como se os mundos estivessem parados, para que parados os dois pudessem se olhar, se conhecer, decorar um o rosto e o corpo do outro. Naquele instante, a vida fez tanto sentido para os dois, que sorriam como nunca haviam antes.
Dez minutos depois, cada mundo foi pro seu lado - mas foram tarde! Daqueles dez minutos já havia nascido o amor. Mal os dois - e o resto dos mundos - sabiam o que viria a seguir.

Parte II - A grande guinada da história dos dois

No dia seguinte, a menina acordou, esfregou seus olhos como de costume e antes de abrir os olhos, lembrou do rosto do menino.
O menino e seu planeta, despertam distantes do outro lado do universo. É mais uma manhã e ele acorda apressado para a rotina de seu mundo. Ele também lembra da menina, enquanto contempla uma flor que brotava no chão, ao teu lado (no seu planeta, as flores brotavam ao lado das pessoas que estavam felizes). Ele sabia que aquela flor era culpa da menina.
Não foi algo calculado, premeditado, sequer combinado - tampouco seria possível, em dez minutos de troca de olhares -, mas a questão é que a partir daquele dia, os dois foram tomados pelo desejo de se encontrarem. E, sem um saber do outro, surgiram planos para viabilizar esse encontro.

No planeta do menino, havia muitos tijolos. Política de governo daquele mundo. O rei, preocupado com flores que brotavam demasiadamente no chão, distribuía tijolos pelo planeta para que abafasse o reconhecimento de felicidade dos seres de lá. Era uma forma das pessoas não saberem que estavam felizes, e sem saber que eram felizes, seguiam concentradas com seus afazeres que garantiam que o planeta continuasse do jeito que estava.
Era preocupante para o rei um planeta em que todos conseguissem enxergar a sua felicidade.
Mas isso não vem ao caso agora. O que interessa é que havia tijolos no planeta e o menino, que gostava de recolher os tijolos, pois não concordava com a atitude do rei, decidiu que com eles construiria uma ponte para o outro planeta, o planeta da menina.
Daria trabalho, mas o menino estava disposto, e quando a gente carrega tanta paixão dentro da gente, a gente tem uma força que é capaz de mover montanhas - e olhando dessa forma, carregar tijolos não seria tamanho esforço assim.

A menina, por outro lado, não tinha a habilidade do menino, e também não tinha tijolos. Na verdade, a menina não fazia muita coisa, além de sonhar. Ela sonhava bastante e, depois dos dez minutos que abalaram os mundos (e daqui a pouco vocês saberão o porquê), passou a sonhar em como encontrar com o menino.
Ela fazia planos mirabolantes, a maioria impossível. Alguns, até chegou a correr atrás e tentar realizar, mas eram tão absurdos que não tinham jeito. Certa vez, foi até a casa do homem que tinha o maior balão do planeta dela, e pediu emprestado. O homem riu da ideia absurda da menina, mas emprestou.
Ele tinha muitas cores e era muito grande, e ela chegou a voar alguns kilometros com ele. Mas sequer conseguiu chegar perto da primeira estrela. Pouco antes, um objeto estranho não identificado furou o balão e a menina foi caindo, caindo, caindo, até que voltou para seu planeta. Sorte que o balão era tão grande que a lona serviu de colchão pra menina!

E ela seguiu fazendo planos, e o menino seguiu fazendo a ponte.
Enquanto isso, todos os dias, vira e mexe a menina olhava para o alto, para todos os lados do horizonte para tentar reencontrar o planeta. A esperança de cruzar os olhos dela com os olhos do menino superava qualquer teoria psicológica do comportamento humano, de certas ações irem diminuindo na medida que não eram reforçados positivamente.

Um dia, fazia muito sol, e a menina pode jurar de pés juntos que em meio a tanta luz ela viu uma bolinha, bem bem bem longe, que tinha uma coisa saindo dela. Na época, a menina não sabia o que era, e isso depois virou uma história feliz de se contar - daquelas lacunas do passado que se completam anos depois. Mas isso ela não sabia, só a gente que está contando a história agora sabe, que era a ponte do menino que crescia.

O menino também, vez ou outra, escalava a construção e procurava pelo planeta da menina. Tentativas mal sucedidas, e no entanto jamais desacreditadas. Coisas que só quem ama entende. Teve uma vez, que o menino contemplava o horizonte após um longo dia de trabalho árduo, de intensiva dedicação ao projeto da ponte. Foi então que viu, ao longe, um troço grande, redondo e colorido. Esfregou os olhos com as mãos calejadas. Quando abriu novamente, não havia mais nada. Na época, o menino não sabia o que era, e isso depois virou uma história feliz de se contar - daquelas lacunas do passado que se completam anos depois. Mas isso ele não sabia, só a gente que está contando a história agora sabe, que era a menina tentando subir com o balão do homem.

E ela seguiu fazendo planos, e o menino seguiu fazendo a ponte.

Parte III - A grande guinada da história dos mundos

A menina seguia fazendo planos.

Entre suas ideias malucas, ouviu boatos de que o rei de seu planeta tinha uma nave, que usava para reuniões interplanetárias vez ou outra. Aquilo era segredo de Planeta, mas um funcionário que ocupava um cargo importante, um dia que estava bravo com o rei deixou vazar. Era ele quem guardava as chaves num cofre do palácio.
A menina, então, encontrou a estratégia central para chegar ao outro planeta: encontrar e conquistar a nave do rei. Bastava agora pensar em táticas para isso ser possível. E todos os dias a menina buscava o cofre e o funcionário do rei.
Certo dia, ficou sabendo também que no local que ficava a nave, havia um monstro verde, grande, com vários braços e pernas, e assustador (porque coisas verdes, grandes, com muitos braços e pernas só poderiam ser assim, assustadoras).
Quem contou isso foi um moço da maior loja de rações do planeta, responsável pelo fornecimento de alimentos do monstro. Contou isso para a menina, em um dia que também estava bravo com o rei.
Com o tempo, o planeta inteiro estava sabendo que a menina estava atrás de alguma coisa que era do rei, e a menina começou a saber que muita gente estava brava com o rei. Assim, os habitantes do planeta dela começaram a ajudar da forma que podiam, fazendo com que pouco a pouco, o planeta todo estivesse mobilizado, de alguma forma, para ajudar a menina.

O menino seguia construindo a ponte.

O menino continuava erguendo, pouco a pouco, a ponte. Recolhia os tijolos, concentrado em seu ritual. As pessoas observavam, silenciosamente, o menino zanzando por ali.
As pessoas de seu planeta viviam em cantos. Moravam em cantos. Eram quietas, cada qual no seu cantinho. Tantos tijolos, e aos poucos foram se habituando a se isolar.
Uma criança que brincava com uma bola observava o menino que cumpria de forma disciplinada a tarefa de recolher tijolos e construir a ponte. A criança era curiosa. Ainda não estava tão domada para caber naquele mundo. Desconhecia das políticas de governo, e ainda não tinha encontrando o seu canto.
Jogou a bola para perto do menino, para se aproximar. O menino pega a bola, sorri gentilmente para a criança - nasce uma flor, cai um tijolo, o menino entrega a bola, pega o tijolo, e volta a construir a ponte.
A criança se aproxima e pergunta, então, o que o menino está fazendo. Não se ouvia muitas vozes por ali, porque as pessoas não se comunicavam. Os tijolos do rei silenciaram as pessoas.
Ele responde, com a voz rouca de quem há tempos não a utilizava, contando da menina. Nascem três flores, caem quatro tijolos - o Governo é ágil. A criança sorri, brotam quatro florzinhas do chão, cai um tijolo. Ela pega e começa a ajudar o menino.
A mãe da criança se espanta. Tantas flores amassadas por tijolos, tanto tempo que encontrou o seu canto para acomodar-se, que havia esquecido o que era estar lado a lado de alguém para atingir um objetivo comum. Ela não sabia da menina do outro planeta. Ela só assistiu a cena - a criança que começa a ajudar o menino que estava há dias, meses, naquela tarefa de construir alguma coisa.
De repente, tomada por uma emoção que parecia adormecida há algumas boas décadas, começou a arrancar os tijolos que constituíam seu cantinho. Possuía uma força que não tinha nome. Aqueles tijolos marcavam inícios de alegria amassados, abafados pelos tijolos do rei, e ela começou a arrancar e juntar num carrinho, até levar, enfim, para o menino.
Ela sorria, e com isso nasciam flores e flores e flores. Flores fortes, com cores brilhantes. E ela chorava, emocionada, e regava as flores com lágrimas, e as flores cresciam e os tijolos desciam e mais flores vinham. Algo se libertou nela, e em tantos outros do planeta que fez com que, algumas horas depois, a cidade estivesse tomada por flores e não já não houvesse mais tijolos pois as pessoas logo o pegavam para construir a ponte.

Parte IV - Esse não é o fim da história, e essa não é (apenas) uma história de amor.

Ao final do dia, todos os habitantes dos dois planetas estavam mobilizados: em um planeta, as pessoas ajudando a construir a ponte. No outro, as pessoas ajudando a encontrar a nave. Os reis estavam enlouquecendo, sem saber o que fazer.
Ao final do dia, já não se tratava mais de fazer com que o menino e a menina se encontrassem, nem ao menos para o menino e para a menina.
Ao final do dia, o menino e a criança e a mãe e a menina e o funcionário que ocupava um cargo importante e o moço da maior loja de rações e até mesmo - espantem! - o monstro verde estavam mobilizados. Todos buscavam construir no planeta do menino e encontrar no planeta da menina uma forma de viver em liberdade e, que fosse possível, nessa forma de viver a vida em liberdade, de o amor acontecer.

Nem que fosse preciso matar o rei.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Um novo jeito de contar a mesma e velha história

essa não é mais uma história de amor.

Parte I - Os dez minutos que abalaram os mundos.

Era uma vez uma menina e um menino - porque toda história que se preze tem no seu enredo pelo menos duas pessoas que se apaixonam - que viviam em planetas diferentes.
Como todos nós sabemos, os planetas ficam circulando pelo universo, em algum ritmo que aí nem todos nós sabemos. A nossa história começa em um momento raro em que esses dois planetas - o do menino e o da menina - se alinham e, durante dez minutos, os olhos da menina cruzaram com os olhos do menino.
Foi de repente. Foi por acaso. Que belo acaso!
E foi carregado de alegria. Na hora, é como se os mundos estivessem parados, para que parados os dois pudessem se olhar, se conhecer, decorar um o rosto e o corpo do outro. Naquele instante, a vida fez tanto sentido para os dois, que sorriam como nunca haviam antes.
Dez minutos depois, cada mundo foi pro seu lado - mas foram tarde! Daqueles dez minutos já havia nascido o amor. Mal os dois - e o resto dos mundos - sabiam o que viria a seguir.

Parte II - A grande guinada da história dos dois

No dia seguinte, a menina acordou, esfregou seus olhos como de costume e antes de abrir os olhos, lembrou do rosto do menino.
O menino e seu planeta, despertam distantes do outro lado do universo. É mais uma manhã e ele acorda apressado para a rotina de seu mundo. Ele também lembra da menina, enquanto contempla uma flor que brotava no chão, ao teu lado (no seu planeta, as flores brotavam ao lado das pessoas que estavam felizes). Ele sabia que aquela flor era culpa da menina.
Não foi algo calculado, premeditado, sequer combinado - tampouco seria possível, em dez minutos de troca de olhares -, mas a questão é que a partir daquele dia, os dois foram tomados pelo desejo de se encontrarem. E, sem um saber do outro, surgiram planos para viabilizar esse encontro.

No planeta do menino, havia muitos tijolos. Política de governo daquele mundo. O rei, preocupado com flores que brotavam demasiadamente no chão, distribuía tijolos pelo planeta para que abafasse o reconhecimento de felicidade dos seres de lá. Era uma forma das pessoas não saberem que estavam felizes, e sem saber que eram felizes, seguiam concentradas com seus afazeres que garantiam que o planeta continuasse do jeito que estava.
Era preocupante para o rei um planeta em que todos conseguissem enxergar a sua felicidade.
Mas isso não vem ao caso agora. O que interessa é que havia tijolos no planeta e o menino, que gostava de recolher os tijolos, pois não concordava com a atitude do rei, decidiu que com eles construiria uma ponte para o outro planeta, o planeta da menina.
Daria trabalho, mas o menino estava disposto, e quando a gente carrega tanta paixão dentro da gente, a gente tem uma força que é capaz de mover montanhas - e olhando dessa forma, carregar tijolos não seria tamanho esforço assim.

A menina, por outro lado, não tinha a habilidade do menino, e também não tinha tijolos. Na verdade, a menina não fazia muita coisa, além de sonhar. Ela sonhava bastante e, depois dos dez minutos que abalaram os mundos (e daqui a pouco vocês saberão o porquê), passou a sonhar em como encontrar com o menino.
Ela fazia planos mirabolantes, a maioria impossível. Alguns, até chegou a correr atrás e tentar realizar, mas eram tão absurdos que não tinham jeito. Certa vez, foi até a casa do homem que tinha o maior balão do planeta dela, e pediu emprestado. O homem riu da ideia absurda da menina, mas emprestou.
Ele tinha muitas cores e era muito grande, e ela chegou a voar alguns kilometros com ele. Mas sequer conseguiu chegar perto da primeira estrela. Pouco antes, um objeto estranho não identificado furou o balão e a menina foi caindo, caindo, caindo, até que voltou para seu planeta. Sorte que o balão era tão grande que a lona serviu de colchão pra menina!

E ela seguiu fazendo planos, e o menino seguiu fazendo a ponte.
Enquanto isso, todos os dias, vira e mexe a menina olhava para o alto, para todos os lados do horizonte para tentar reencontrar o planeta. A esperança de cruzar os olhos dela com os olhos do menino superava qualquer teoria psicológica do comportamento humano, de certas ações irem diminuindo na medida que não eram reforçados positivamente.

Um dia, fazia muito sol, e a menina pode jurar de pés juntos que em meio a tanta luz ela viu uma bolinha, bem bem bem longe, que tinha uma coisa saindo dela. Na época, a menina não sabia o que era, e isso depois virou uma história feliz de se contar - daquelas lacunas do passado que se completam anos depois. Mas isso ela não sabia, só a gente que está contando a história agora sabe, que era a ponte do menino que crescia.

O menino também, vez ou outra, escalava a construção e procurava pelo planeta da menina. Tentativas mal sucedidas, e no entanto jamais desacreditadas. Coisas que só quem ama entende. Teve uma vez, que o menino contemplava o horizonte após um longo dia de trabalho árduo, de intensiva dedicação ao projeto da ponte. Foi então que viu, ao longe, um troço grande, redondo e colorido. Esfregou os olhos com as mãos calejadas. Quando abriu novamente, não havia mais nada. Na época, o menino não sabia o que era, e isso depois virou uma história feliz de se contar - daquelas lacunas do passado que se completam anos depois. Mas isso ele não sabia, só a gente que está contando a história agora sabe, que era a menina tentando subir com o balão do homem.

E ela seguiu fazendo planos, e o menino seguiu fazendo a ponte.

(continua.)

A continuação.

Parte III - A grande guinada da história dos mundos

A menina seguia fazendo planos.

Entre suas ideias malucas, ouviu boatos de que o rei de seu planeta tinha uma nave, que usava para reuniões interplanetárias vez ou outra. Aquilo era segredo de Planeta, mas um funcionário que ocupava um cargo importante, um dia que estava bravo com o rei deixou vazar. Era ele quem guardava as chaves num cofre do palácio.
A menina, então, encontrou a estratégia central para chegar ao outro planeta: encontrar e conquistar a nave do rei. Bastava agora pensar em táticas para isso ser possível. E todos os dias a menina buscava o cofre e o funcionário do rei.
Certo dia, ficou sabendo também que no local que ficava a nave, havia um monstro verde, grande, com vários braços e pernas, e assustador (porque coisas verdes, grandes, com muitos braços e pernas só poderiam ser assim, assustadoras).
Quem contou isso foi um moço da maior loja de rações do planeta, responsável pelo fornecimento de alimentos do monstro. Contou isso para a menina, em um dia que também estava bravo com o rei.
Com o tempo, o planeta inteiro estava sabendo que a menina estava atrás de alguma coisa que era do rei, e a menina começou a saber que muita gente estava brava com o rei. Assim, os habitantes do planeta dela começaram a ajudar da forma que podiam, fazendo com que pouco a pouco, o planeta todo estivesse mobilizado, de alguma forma, para ajudar a menina.

O menino seguia construindo a ponte.

O menino continuava erguendo, pouco a pouco, a ponte. Recolhia os tijolos, concentrado em seu ritual. As pessoas observavam, silenciosamente, o menino zanzando por ali.
As pessoas de seu planeta viviam em cantos. Moravam em cantos. Eram quietas, cada qual no seu cantinho. Tantos tijolos, e aos poucos foram se habituando a se isolar.
Uma criança que brincava com uma bola observava o menino que cumpria de forma disciplinada a tarefa de recolher tijolos e construir a ponte. A criança era curiosa. Ainda não estava tão domada para caber naquele mundo. Desconhecia das políticas de governo, e ainda não tinha encontrando o seu canto.
Jogou a bola para perto do menino, para se aproximar. O menino pega a bola, sorri gentilmente para a criança - nasce uma flor, cai um tijolo, o menino entrega a bola, pega o tijolo, e volta a construir a ponte.
A criança se aproxima e pergunta, então, o que o menino está fazendo. Não se ouvia muitas vozes por ali, porque as pessoas não se comunicavam. Os tijolos do rei silenciaram as pessoas.
Ele responde, com a voz rouca de quem há tempos não a utilizava, contando da menina. Nascem três flores, caem quatro tijolos - o Governo é ágil. A criança sorri, brotam quatro florzinhas do chão, cai um tijolo. Ela pega e começa a ajudar o menino.
A mãe da criança se espanta. Tantas flores amassadas por tijolos, tanto tempo que encontrou o seu canto para acomodar-se, que havia esquecido o que era estar lado a lado de alguém para atingir um objetivo comum. Ela não sabia da menina do outro planeta. Ela só assistiu a cena - a criança que começa a ajudar o menino que estava há dias, meses, naquela tarefa de construir alguma coisa.
De repente, tomada por uma emoção que parecia adormecida há algumas boas décadas, começou a arrancar os tijolos que constituíam seu cantinho. Possuía uma força que não tinha nome. Aqueles tijolos marcavam inícios de alegria amassados, abafados pelos tijolos do rei, e ela começou a arrancar e juntar num carrinho, até levar, enfim, para o menino.
Ela sorria, e com isso nasciam flores e flores e flores. Flores fortes, com cores brilhantes. E ela chorava, emocionada, e regava as flores com lágrimas, e as flores cresciam e os tijolos desciam e mais flores vinham. Algo se libertou nela, e em tantos outros do planeta que fez com que, algumas horas depois, a cidade estivesse tomada por flores e não já não houvesse mais tijolos pois as pessoas logo o pegavam para construir a ponte.

Parte IV - Esse não é o fim da história, e essa não é uma história de amor.

Ao final do dia, todos os habitantes dos dois planetas estavam mobilizados: em um planeta, as pessoas ajudando a construir a ponte. No outro, as pessoas ajudando a encontrar a nave. Os reis estavam enlouquecendo, sem saber o que fazer.
Ao final do dia, já não se tratava mais de fazer com que o menino e a menina se encontrassem, nem ao menos para o menino e para a menina.
Ao final do dia, o menino e a criança e a mãe e a menina e o funcionário que ocupava um cargo importante e o moço da maior loja de rações e até mesmo - espantem! - o monstro verde estavam mobilizados. Todos buscavam construir no planeta do menino e encontrar no planeta da menina uma forma de viver em liberdade e, que fosse possível, nessa forma de viver a vida em liberdade, de o amor acontecer.

Nem que fosse preciso matar o rei.
 
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