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sábado, 30 de novembro de 2013

Não se entregue


No te entregues corazón libre, no te entregues
Eu sei que a tua dor dói
A ponto de teu pulmão fechar
E teu corpo adoecer
E se eu pudesse arrancava ela de ti.

Mas você precisa entender
O mundo tem muito mais dor
Que essas que você guarda com cuidado
Debaixo de seu travesseiro

Você precisa entender
Que alimentar essa tristeza é egoísmo:
O mundo tem muito mais alegria
Quando você está no meio.

Corre, corre para a rua
Que a vida não vai esperar
As lágrimas secarem
(elas secam e outras vêm).

Basta de se afogar
É hora de transbordar

Que o outro mundo
Tem pressa pra nascer.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Dos caminhos tortos da luta

Uma nova etapa se inicia: as lutas aumentam e a repressão também. É o inicio de uma nova era, mas 
as olheiras,
os ombros pesados,
os corpos cansados 
vem de outras batalhas.

Poetas falam do horror desse mundo - da miséria, da morte e das opressões. 
Falam de um outro possível, de vida plena, justiça, igualdade. São poucos que falam do caminho, do percurso, do meio que existe entre o horror desse mundo e do possível outro. Poucos falam da ponte, que é dificil e cheia de tropeços.

Os últimos dias apontam essa ponte de forma latente. As lutas não são de hoje, nem a repressão é. Mas hoje se apresentam de forma mais intensa. O que antes ocorria distante dos olhos, no exterminio do campo, das aldeias indigenas, das periferias, hoje ocorre nas principais avenidas das grandes capitais. E torna pauta das midias e mesas de bar.

Assisto os rostos espantados daqueles que entraram encantados com a promessa de um outro mundo, sem dar tanta atenção a essa ponte - dura e dolorosa - que tem antes. Falavam de socialismo como algo utópico e como um sonho. O cenário hoje mostra que isso não é brincadeira e que há violência. Que um atraso, uma ausência, uma falha, pode custar a vida e a liberdade de alguém. Que nós temos medo mas seguimos corajosos, enquanto eles tremem de medo e seguem latindo. Latem forte. Às vezes mordem. Mas sabem que será impossível nos derrotar. 

Alguns desiludidos ou fatalistas chegarão à conclusão que a revolução não é só poesia. Ouso questionar.
A poesia não é só beleza;
A beleza não é só alegria.
E a alegria não está só na paz.

domingo, 29 de setembro de 2013

É preciso resistir.

Os passos incertos dela pisam o caminho firme. 
A certeza que não tem 
Estão nos olhos, mãos, pés e coração de seus companheiros.
Ela enxerga e isso acalenta.
Acalenta, mas dói por não encontrar em si tal certeza.
Ainda assim, 
Seus passos incertos seguem pisando o caminho firme.

Seus companheiros insistem em fazer do caminho incerto
Um caminho firme pra ela pisar.


É, companheira, não é sempre que dá. Hoje não deu. Não é fácil mesmo, essa coisa de seguir em frente, quando nosso mundo cotidiano parece nos empurrar o tempo todo pro chão. Todo dia. Temo dizer que pra poucos seja, coisa fácil.

Talvez um dia, que não será amanhã nem em tão pouco tempo, pessoas falarão - e talvez nem estaremos aqui pra dizer ou escutar -  sobre esse período de trevas que atravessamos. Talvez um dia a gente entenda que não é natural viver em uma sociedade doente e que pra conseguir isso todos nós somos obrigados a adquirir uma força brutal cotidiana.

É preciso resistir
o preço da comida que sobre no mercado
o preço do bilhete da passagem que sobe
a especulação que faz o preço do aluguel da casa subir
o preço da escola das crianças que sobe
o trabalho precarizado que não acompanha tudo que sobe
a fila do hospital sem sabonete
o sucateamento da universidade
o medo de voltar pra casa
o tempo limitado que sobra pra amar
a medicalização de nossas angustias diante disso tudo
a ameaça de morte,
o terror psicológico,
a prisão e repressão daqueles que buscam resistir coletivamente.

É preciso resistir, mas nem sempre dá.

.

A verdade, companheira, é que você não pode fugir da luta. Ela está intrínseca a tua realidade e condições objetivas.
Talvez para tuas colegas de faculdade seja uma opção ideológica. Escolha teórica metodológica. Não pra ti. Viver é uma luta - e tu pode até optar, em fazê-la coletivamente ou não, mas não dá pra fugir.

Não dá.
Mas hoje você tentou.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Não se cale!

É sempre do mesmo jeito.
Alguém conta um caso horrível que leu e o clima fica pesado. Outra comenta conhecer uma pessoa que passou por algo parecido, e detalha uma história horrível. Então alguém diz que também conhece e conta outra horrível história. E então uma quarta pessoa que estava calada até então solta, como algo entalado há muito tempo:

- Eu já passei por algo assim.

Por um instante todas se calam. Chegou a hora dela não se calar, e por vez contar algo muito tempo guardado. É a primeira denuncia, ainda que pra quatro pessoas. As palavras saem de sua boca doídas, e as demais recebem as palavras doídas com muita dor.


Então, não é rara as vezes que todas começam a compartilhar suas próprias histórias de dor, até então privadas. Pouco a pouco o corpo relembra aquele toque não desejado que veio mesmo assim. De um desconhecido ou de um namorado da adolescência. Ou de um familiar. Ou de um cara da faculdade.

As estatísticas não escondem. A OMS estima que cerca de mais um terço das mulheres do mundo já sofreram alguma agressão física. Isso significa que uma em cada três mulheres passam, em algum momento da sua vida - e às vezes é um periodo longo - por alguma violência, seja estuprada ou espancada.

A cada 12 segundos uma mulher é estuprada no Brasil. E quando falamos disso pensamos na imagem do beco escuro e a mulher de saias curtas ("provocando") andando pela madrugada (horário de mocinha ficar em casa!!!). Isso acontece, e independente do tamanho da saia e independente do horário. Mas o estupro está presente no dia a dia mais banal. Na volta de uma festa com um amigo bêbado, no dia que o namorado ou marido ou parceiro força o sexo mesmo sem a mulher estar interessada. E isso agrava com as mulheres pobres que às vezes dependem financeiramente do agressor, que possuem uma dificuldade material de livrar-se de uma situação de violência.

-

Infelizmente, nenhuma mulher está blindada de ser violentada. É claro que vamos criando algumas medidas para evitar, mas acho importante sempre escrever e falar isso porque 

(1) não somos nós que devemos adaptar a nossa vida para possíveis não estupros
é lógico que sabendo que estamos em um mundo machista e que uma a cada três mulheres sofre violência, precisamos estar atentas. há mulheres que recorrem para defesa pessoal, ou que andam com spray de pimenta na bolsa. mas mais importante que isso, precisamos lutar para que estejamos cada vez mais seguras e que o Estado nos dê cada vez mais assistência quando algo ocorre. O problema não é da estuprada, é do estuprador. Não somos nós que devemos temer. E hoje quem teme somos nós porque o mundo está ao lado do estuprador. São os programas e propagandas de TV que mostram a mulher como objeto sexual e muitas vezes naturalizam o estupro ou até fazem piadas. Está na dificuldade de ter acesso a informação do que fazer quando isso acontece. É a suspeita que existe na delegacia, no hospital, na familia, entre os amigos, que de forma explícita ou implícita acreditam que de alguma forma, ela permitiu que isso acontecesse. E isso leva ao outro "porquê" sempre ressaltar que não estamos livres de passarmos pela situação de violência.

(2) muitas vezes não falamos porque temos vergonha e a vergonha existe porque, muitas vezes, pelo motivo acima, achamos que a culpa é nossa. E isso não é só com a mulher que não tem informação. Isso acontece com mulheres que estão na faculdade, acontecem com feministas que são ativistas e debatem isso há anos. É diferente quando acontece conosco. Não estamos habituadas a enfrentar e denunciar o estupro. E denunciar já é um desafio. A mídia não nos deixa denunciar e está estampado nas manchetes de jornal quando aparece que alguma mulher "disse que foi estuprada". Disse que. A mídia coloca a pulga atrás da orelha - será que ela não deu motivo? E essa pergunta ecoa em cada uma das mulheres que passam por isso. Como mais uma mulher que já passou por isso, posso dizer que falar do assunto com mais alguém dá medo. Medo de ouvir um questionamento. É comum não contar para o namorado ou para o pai pelo medo de machucá-los (os "homens protetores que falharam") ou pelo medo de se decepcionar com a reação (quando esses ao invés de ficar ao lado, insinuam que você foi culpada). É preciso vencer esse medo e falar.

Não há saia longa, submissão, reclusão ou silêncio que nos protejam da violência. Há mulheres que vivem para seus maridos, dando comida e roupa lavada e ainda assim são espancadas e forçadas a fazer sexo. Pelo contrário: o que irá nos salvar da violência é justamente a gente fazer muito barulho. Vivemos uma sociedade doente - por séculos e décadas de opressão - que precisa ser transformada. 

Não deixemos que essas experiências dolorosas fiquem guardadas aos muros dos becos, ou às paredes (às vezes de nossas próprias casas). Quebremos os muros e as paredes com nossa denúncia. Precisamos falar disso cada vez mais. Fico sempre impressionada, pois não tem uma vez que alguém me apresenta um texto novo de relato de experiência de alguma violência, que não venha acompanhado de comentários tocantes - no blog, entre a pessoa que divulgou etc. E na hora dói escrever, falar, ler, ouvir, mas também saímos sempre fortalecidas. Isso não pode ficar guardado em nossas gargantas, sobre nossas costas. Joana, Samara, Dalila, Clarice, Felícia, Célia, Regina, Sonia, Gabriela, Liz, Marcela, Zélia, Claudia, Thalita, Veronica, Francisca, Adélia, Mara e todas as mulheres, não se calem! 

sábado, 11 de maio de 2013

Cotidiano

Na dificuldade de escrever textos, sigo com trechos, fragmentos do cotidiano.

Do ônibus

Enquanto lia um texto de Sergio Lessa polemizando com Antunes e Iamamoto sobre trabalho e quem é trabalhador, um homem pede a licença para falar no ônibus e discursa, curiosamente entrando no debate. É jovem e fala sobre o desemprego e a contradição atual - de pleno desenvolvimento e tamanha desigualdade. Diz que pode não ter emprego, mas que jamais se esgotarão as formas do homem trabalhar. E assim apresenta seu ramo: vendedor de chicletes. Morango ou menta, sabor garantido por uma hora, segue passando pelos passageiros, que iniciam um debate sobre a dificuldade de conseguir emprego e o humor do bom moço que vende chiclete no ônibus.

- Bom que não está na criminalidade - muitos pensam, alguns falam entre os conhecidos, alguns falam diretamente a ele.

Eu penso: Lessa, Antunes e Iamamoto poderiam pegar mais ônibus.

Da criatividade argumentativa dos reacionários (parte 1):

Uma moça olhava os bottons que eu vendia e por um instante se surpreende ao ver o botton: "Legalizar o aborto":
- Você é a favor do aborto??? - diz a moça, indignada.
- Sou, sim. Você não é? - digo, sabendo evidente que ela não é, mas tentando iniciar um debate.
- Claro que não! Essas mulheres só fazem de engravidar. Mas explique porque você é a favor.

Então explico, brevemente, da hipocrisia do Estado em não garantir a gravidez segura mas exigir que a mulher tenha, no direito de escolha da mulher, na quantidade de mulheres que morrem por aborto e que se legalizasse eram essas mulheres que salvaríamos, mas que as mulheres não deixarão de fazer sexo seguro "porque agora pode abortar", de ser uma questão de saúde pública e assim vai. Ela continua a olhar desconfiada, e então, com tom de esperteza, pergunta:

- Se você estivesse dirigindo e visse um gato na rua, você atropelava?
Eu, indignada, prontamente respondo:
- Não!!!
- Então! - diz a moça, no tom de que tinha provado seu ponto de vista.

Da criatividade argumentativa dos reacionários (parte 2):
(aconteceu com uma companheira)

- Você não é socialista?
- Sou, sim.
- Então por que trabalha no shopping?
- Porque preciso de salário, oras! Me sustente então que eu não trabalho mais.
- Ué, você não é feminista? Se prostitua...

quarta-feira, 6 de março de 2013

Na parede do quarto, um retrato.

Na parede do quarto vejo,
minhas companheiras,
meus companheiros,
e um caminho pra outro mundo.

E quando estou chorando
porque tenho saudade
ou porque a vida dói;

E quando estou rindo
porque tenho companheiros aqui
ou porque a vida é doce também;

E quando estou com raiva
do mundo bruto que vivemos;
Ou quando há uma vitória
grande ou pequena para nossa história;

Ao chegar em casa, vejo meus companheiros
Na parede do quarto.
E mesmo que o cansaço grite,
E que os ombros pesem,

O retrato faz lembrar, sempre:
Outro mundo é possível
E que há muito o que se fazer,
Pra fora das paredes desse quarto.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Meio morro, meio mar. Saudade inteira.

Os pés pisam sentindo pela última vez os asfaltos das ruas e avenidas e canais. Os pés sentem também pela última vez as areias feias ao mesmo tempo que os olhos tentam registrar como numa fotografia o horizonte desta cidade. Meio morro, meio mar. Saudade inteira.

São muitas as despedidas, porque despedida pra valer é assim: processo. Ensaio a minha retirada, e num vou-não-vou me preparo para quando não tiver mais opção: quando voar pra longe, para outros asfaltos e outras areias e outros mares for pra valer.

A verdade é que a paixão por essa cidade veio lenta. Pouco a pouco. E apaixonei pelo todo: a grande cidade, o que significava. Sua história. E depois vieram as nuances, detalhes. Os cantos preferidos. O melhor samba, o melhor sorvete, o melhor cinema, o melhor lugar pra dançar, a melhor praça, o melhor cachorro quente. O melhor canto pra olhar o mar.

E tem as pessoas. Aqui descobri a nossa força quando somos mais. Tornamos grupo, tornamos tanto, descobrimos que não estávamos mais sozinhos e que juntos somos fortes. Quando vimos essa força, me senti grande. E então veio o apego por essas pessoas. Pouco a pouco, fui percebendo as individualidades, nuances também. Nesses anos fomos nos descobrindo entre risos e choros e sambas, encontrei artistas da arte e da vida: músicos, poetas, filósofos, cozinheiros - dos mais criativos -, crianças - de alma e de idade - e lutadores, militantes da vida. Conheci professor que aprendeu a ser estudante e estudante que aprendeu a ser professor. Gente que precisa sonhar mais, gente que precisa sonhar menos. Também encontrei trabalhadoras e trabalhadores, em sofrimento e alegria. De uniforme sujo, rosto cansado. De barriga vazia e dor no corpo. De luta e de greve. Gente real, vidas reais.

Aqui, nessa cidade, descobri que vida é assim, um cabo de guerra: ou o mundo nos engole ou engolimos o mundo. Nós optamos por tentar engolir, devorá-lo com gosto. É um campo de batalha nada fácil em que por muitos momentos perdemos ou arriscamos perder companheiros. Tentamos salvá-lo de ser engolido. E o tempo inteiro tentamos nos salvar. Alguns foram. Outros apareceram. Conheci a partir daqui outras cidades, Estados e Países. Outras lutadoras e lutadores de tanto canto possível e imaginável. Conheci a partir daqui, uma outra cidade de São Paulo também, com outras nuances e outras individualidades.

Eu vou embora levando o que essa cidade mais me ensinou: lado humano e belo da vida, que dá força pra enfrentar o que há de mais bruto e sujo. Aqui conheci a dialética. Aqui conheci que a história não acontece como queremos mas que também somos sujeitos pra transformá-la. Aqui conheci gentes. Santos - meio morro, meio mar - me deu gente inteira, e o mundo inteiro.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Do reencontro.

Foi numa ruazinha, ambos a caminho para se encontrar, finalmente nessa São Paulo chuvosa e cinza. Ele sempre de guarda-chuva, ela sempre sem. Falavam pelo telefone, tentando acertar o desencontro até que se vêem. Desligam o celular e caminham, aproximam-se. Ela se abriga no guarda-chuva dele e abraça forte. Ele abraça forte, devolvendo. Ainda abraçados, como se fossem companheiros do campo de batalha após uma guerra, fecham os olhos um no ombro do outro e permanecem:
- Tá bem?
- Não sei...
...
Tá bem?
- Não sei...
- É. A gente nunca sabe.

Então souberam: pode passar quantas batalhas, quantos caminhos, quantas histórias... um estará sempre ali para o outro. Um almoço que virou jantar que virou café da manhã. Conversas intermináveis. Era trégua da batalha, greve na fábrica, pausa para o segundo tempo. Neuróticos, obsessivos ou o que for... por quase 24hs o tempo parou naquela casa. Alguém para rir e chorar, coisas da vida que só aquela pessoa entenderia. E se despedem sem saber quando se encontram novamente, e com o tempo foram aprendendo a lidar bem com isso.

- - - 

Companheiro, estou indo e dessa vez vou menos só. As estradas são outras, mas sei que estamos lado a lado na mesma direção. Nos encontramos em esquinas, para um café, cigarros amanteigados e confissões das mais estranhas às mais intensas. Dessa vez eu vou menos só, na certeza de que marchamos ombro a ombro pela vida doce que acreditamos ser possível construir, pelo amor intenso que acreditamos ser possível viver, por uma humanidade sincera que acreditamos ser possível brotar.

É encontrando contigo que a luta fica menos dura. Te agradeço por me ajudar a encontrar poesia até onde parece não ter, a me manter firme cultivando cada vez mais ódio a esse sistema, mas tremenda paixão pelas possibilidades de relações humanas livres de todo e qualquer tipo de opressão.

Estou indo e dessa vez vou menos só.
Levo com carinho a vontade de voltar
Pra lavar toda saudade impregnada.

Toda batalha é mais fácil de encarar, sabendo que sempre haverá teu abraço-trégua.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Internacionalismo

A cidade de repente ficou pequena, e veio outra.
Daí eram duas cidades, que também ficaram pequenas.
E vieram outras... pequena demais.
Então mudou o Estado, e teve outro e outro e outro.
E o Brasil ficou pequeno.
Então veio outro País... pequeno, pequeno País.

Na semana passada, o mundo todo coube num salão.
O mundo ficou pequeno, e coube naquele salão.
Falávamos muitas línguas e ainda assim nos entendíamos.
Pois todos queriam se escutar,
E contar do que sabiam
E perguntar o que queriam saber.

Hoje o mundo ficou grande.
Todos estão longe
uns dos outros.
Cada um no seu canto do mundo
lutando para que o mundo fique pequeno de vez.
Pra sempre.


domingo, 20 de janeiro de 2013

Mais um morto.

O jornal denuncia
a morte de mais um companheiro.
Eu não o conhecia,
mas lutamos pelas mesmas causas.

O atestado de óbito
está escancarado no jornal
ainda que poucos leram:
Mais um morto pela causa.

Eles sabem que
não adianta matar
um ou milhares:
A causa permanecerá.

Não há arma que mate
a indignação diante da injustiça.
Porque cada um assassinado
são um ou milhares que se revoltam.

Ainda assim eles matam
Porque tem ódio
Porque tem medo

Mas a causa sobrevive
Porque nós temos razão.

*em homenagem a André Caruaru (PSOL-PA) e tantos outros...

domingo, 16 de dezembro de 2012

Do feminismo nosso de todo dia.

"Maquilagem, cabelo, roupa, corpo e homens! Saiba tudo o que uma mulher precisa aqui! Responda SIM e assine por R$0,35/dia os segredos que toda mulher tem que saber"

Recebi essa mensagem no celular essa semana, e ficou ecoando na minha cabeça o tempo todo. Em um primeiro momento, o fato de "maquilagem, cabelo, roupa e corpo" serem colocados no mesmo "conjunto" de "homem". Como se tratasse de um mesmo grau de interesse e de uma mesma necessidade de atenção a forma como escolhemos um penteado ou nos relacionamos com outro ser humano. A questão é essa: não se trata de relações humanas. É uma coisa, os homens. Precisamos saber o que eles afinal pensam e querem, e como fazer para ganhá-los. Dos bons, evidentemente. E claro, a melhor opção é adquirindo um serviço de celular.

Propaganda no Yahoo - Oferta do dia: "solteiro"
Sempre escrevo insistentemente sobre como reproduzimos nas relações humanas a forma que nos relacionamos com as coisas. Insisto porque é uma lógica que estamos todos sujeitos a reproduzir sem perceber. E é muito triste esse grau de previsibilidade e clichê que nos tornamos. Repetimos e repetimos insistentemente, tentando reproduzir da forma mais correta que a "receita" prescreve a forma de amar outra pessoa, as outras pessoas. Mesmo que esse modelo nos custe colocar de lado nossos desejos e vontades.  Não bastasse nos ordenar: trabalhas, pague, compre... também nos orientam: ame aquele, seja desse jeito, sirva a teu esposo dessa forma, reproduza filhos sadios.

Para além dessa relação reificada, existe essa redução do que se trata ser mulher. É tão cristalizado e naturalizado que penso quantas mulheres questionaram ao receber um SMS. Eu me senti, ao ler, extremamente reduzida. Como se fosse isso que a mulher deveria se interessar: estética e homens. Estética para conseguir atrair os homens. Parece bobeira, parece papo chato de feminista como gostam de falar por aí mas não é! Normalmente fico brava e me irrito com essas mensagens - não só do celular, mas cenas da televisão que nos reduzem dessa forma: Seja burra, mas seja gostosa. Seja decidida, porque os homens gostam, mas não tão decidida, porque eles assustam. Seja sexy, mas não seja vulgar - pode dificultar arrumar um marido - coisa mais fácil é ser mal falada.

Dessa vez não fiquei brava, mas fiquei triste. A cena que me veio na cabeça era como uma criança gordinha com roupinha de ginástica, tentando impressionar os pais com coreografias mirabolantes e mal sucedidas, que dão risada tentando dizer: "não precisa disso, queridinha". De repente eu era essa criança, em meio a tantos livros, buscando com tanto compromisso uma formação humana com o objetivo de contribuir da melhor forma pra uma transformação social... e a sociedade me manda um SMS dizendo que tudo que eu preciso é de uma boa sombra e um bom decote. Desista. Esse mundo dos pensantes não é pra ti, lindinha.

Talvez um homem não tenha a dimensão disso, do que significa ouvir quase a vida toda que sua inteligência é bônus. Ou, pior, como algo que atrapalha. Melhor que seja burra mesmo, mas bonita. Bem cuidada. Belos dentes. Contanto que o conjunto de roupas e maquilagem estejam de acordo, tanto faz o que falaremos. Lembro de um livro, sobre Simone de Beauvoir e Sartre no Brasil, que comentava de notícias do jornal, que quase não falavam dela, apontando os holofotes sempre para Sartre. Muitas vezes, ela era isso: a companheira de Sartre. O cúmulo do absurdo foi em uma palestra dela os jornalistas comentarem sobre a ausência de Sartre na platéia, pois estava sabe lá onde. A ausência de Sartre era mais interessante que Simone falando.

Nós nos acostumamos (essa palavra dói nos ossos na alma e em tudo) a essa condição. Reduzidas a uma máquina de fazer filhos e refeições para o marido. Com uma calça que ressalta a bunda e um sutiã que valoriza os seios, uma maquilagem que esconde as olheiras de cansaço e qualquer sinal de idade - afinal, temos que nos manter ou aparentar jovens, para não sermos trocadas.

Parece exagero, mas se pararmos para pensar é essa imagem que está de fundo quando nos dão bonecas de presente, quando nos mostram desde pequenas o batonzinho, a bolsinha, o sapato alto. Fogãozinho. Nos ensinam a sentar de perna fechada - "senta igual mocinha". Se buscarmos entender o que está no nosso imaginário social, o que está pelas televisões, nas notícias de jornal, nas músicas... é isso que está nos dizendo. O tempo todo. E se entendemos a mensagem e questionamos somos as feministas chatas. Não entendemos a brincadeira.

Pois é, eu não entendi a brincadeira, sociedade. Talvez eu tenha perdido a parte engraçada quando um sujeito imaginou que tinha permissão de agarrar a minha bunda no metrô quando eu não tinha nem 18 anos - eu fiquei com vergonha, ao invés de ficar brava. Ele disse que foi sem querer, mas eu e ele - e o resto que viu - sabe que não foi. Talvez era muito nova pra entender a piada quando o zelador do prédio ao lado me chamou de gostosa ao me ver com o uniforme da escola, e eu então fiquei um tempo sem coragem de usar saia. Talvez não tenha entendido a piada quando um "companheiro" me disse que eu não precisava falar muito para convencer os homens a ser militante, basta piscar meus olhinhos verdes. Ou perdeu a graça - tantas brincadeiras depois -  quando eu vi na TV que mulher feia deve agradecer ser estuprada. Não vi graça mesmo ao sentir medo de voltar pra casa pois morava num prédio que outras garotas tinham sido estupradas outras vezes, algo "recorrente naquela região". Esqueci de rir quando bateram na minha vizinha, pelo fato dela ser mulher, e de seu esposo estar com raiva - que outro lugar para depositar sua raiva, que não em sua mulher, não é mesmo?

A forma de apagar essa mensagem da cabeça é talvez escrever sobre. Denunciar. É o que podemos fazer. Sabemos que nosso grito não tem o alcance das palavras e gestos sufocantes do outro lado, mas vamos tentando. Que chegue em uma, que alcance outra, que questione mais uma. Quem sabe alguns companheiros no caminho se sensibilizem. Até que um dia deixem de nos querer deixar pequenas. Até que nós passemos a aprender que não devemos pedir permissão para sermos grandes do jeito que somos. Até que um dia a opressão comece a perder a graça, e possa, quem sabe, ser superada.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Quarta-Feira

Ressaca

E talvez você quer que eu queira que você queira me querer. Mas eu estou firme e forte na decisão de te querer contido, em silêncio com súbitas confissões devido ao álcool ou alguma alegria daquelas que nos assaltam e faz a gente confessar as coisas e justificar sorrisos. Querendo ou não, suas perguntas me fizeram pensar o porquê de não ter sido capaz nos últimos anos de manter relações. Ótima em começos, péssima em fazer durar. relações curtas e intensas. Será isso, então, a história das próximas relações? Sou namorável? Sou capaz de sustentar uma relação ou serei no futuro um acúmulo de histórias fragmentadas, passageiras, ainda que intensas?

...
A gente não quer só comida
na fila do lanche

- ...mas nossa relação é meio estranha.
- não acho estranha. tenho relação mais estranhas. por exemplo com a...
- ...é sempre assim! eu começo a falar da gente e tu começa a falar das outras...é tão difícil?
- quer mais queijo?
- sim.
- não é difícil. eu gosto de você, de conversar com você e de estar com você...
- alface, tomate e pepino?
- sim, valeu.
- ... não vejo nada de estranho nisso...nós ficamos, nos gostamos, é isso.
- deseja algum molho?
- uhmmm... tem parmesão? a gente divide refrigerante?
- tem, sim.
- sim, vamos dividir.
- sprite ou fanta?
- tanto faz.
- pra mim também tanto faz.
...
A força que nunca seca.

Haja esforço pra tentar calar. Está por todo o mundo, em todas as esquinas, por todos os bairros, escolas, fábricas. Sempre há alguém que recusa o silêncio, que abre a boca pra falar. Que lembra que não adianta anunciar a morte, forçar o enterro, fingir que nunca existiu. "Os poderosos podem matar uma, duas, três flores, mas jamais deterão a primavera"*. - diz um dos tantos que permanecem vivos na história. É a contradição, a dialética, o movimento. Sempre terá alguém, ainda que minoria em meio a tantos olhares mortos, alguém que sabe que nada deve parecer impossível de mudar* (diz um outro dos tantos que permanecem vivos na história). E são tantos os assombros, os desânimos, os ataques de tantos lados... mas basta conhecer uma dessas tantas pessoas que a possibilidade de transformar torna-se real. A vontade de mudar fica viva. Essa força estranha, que nunca seca, essa chama acesa que mantém viva naqueles que sonham acordados com o despertar de um outro mundo. Seguimos fortes, escrevendo - e muitas vezes reescrevendo - a história.

* citação de Che Guevara e Brecht, respectivamente.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Um primeiro esboço

Ela chama de "escolha libertária". um jeito bonito de dizer que estamos sozinhas. Bom, fato é que não estamos mesmo, mas ás vezes parece isso: uma militância. Falamos de outra coisa, embora não sabemos do que é. Viver romances, parece algo tão simples na minha cabeça, mas ao querer viver isso parece tão complicado.

 "Como assim não quer casar?".
Se sentir como ser uma "moderninha" da década de 20. Não se trata de uma luta para não se casar. Vejo histórias lindas, casais que quando briga sofro junto, pensando num possível término. Trata-se de ser contra a procura desesperada de um marido. É tão terrível assim acreditar que as histórias acontecem para além dos contratos matrimoniais, que pelo menos no amor e na paixão não nos renderemos às exigências do capital (casar-e-ter-filhos)?
Custou um tempo para confessar isso, porque relutei para acreditar que esse pensamento ainda existe. E aí ao pensar duas vezes, de fato não é tão absurdo. É o que explica o repúdio ao aborto e relações homossexuais e homoafetivas. Aquelas pessoas que fazem uma "escolha libertária" e constroem outro significado para amor,  afeto, família, companheiro, companheira, desafiando a norma de conduta atual. E como se acostumar com o fato de nos acostumarmos com o fato de que somos submetidos a um modelo de como nos relacionar! Isso já é um motivo pra lá de suficiente para se tornar comunista!

E nos esforçamos em provar que a mentalidade do príncipe-que-nos-troca-por-cabras-com-o-pai não é tão distinta da mentalidade do não-quero-um-relacionamento-sério ou vamos-só-curtir. Ambos são regras que colocamos acima do desejo. Relações fulgazes e superficiais ou a procura de um esposo-príncipe - são essas nossas escolhas? Não, muito obrigada. E que não seja nem o meio disso, uma espécia de "equilíbrio". Na tentativa de classificar as coisas, matamos o que há de espontâneo e nem sempre explicável. E para que o inexplicável caiba nessas regras, somos obrigados a reduzir o que sentimos, restringir nossa forma de se relacionar com as outras pessoas.

"Não pode ser assim. Não deve se jogar de cabeça... podemos só curtir.". 

não pode.
não deve.
não.
não.
não.

Regras que organizam o inorganizável. Incrível como precisamos dessas coisas para viver em relação com as outras. Por que não dizer: "EU não quero me jogar de cabeça"? Vontade de responder:
Surpresa: não trago nem véu, nem buquê, nem aliança, nem segredos escondidos.
Era vontade, muita vontade. Isso que trazia. Vontade de ficar junto. Mas agora passou.
E a burocracia venceu mais uma vez.

Mas jamais entenderia. Então respondemos: "ok". E seguimos com a "escolha libertária".


sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Do que não cabe.

Ele pensava em filhos e onde é melhor comprar uma casa e ela queria sair daquele apartamento e mudar o mundo - ou pelo menos os móveis de lugar, pois aquelas poltronas voltadas para a televisão me incomodava horrores. Discutiam muito até o coração dizer chega, que se continuar estraga a paixão. Então iam para a cama onde se entendiam bem - onde tanto faz se era Moreno, Rosa, Mandel ou Kautsky. Primeira, Segunda, Terceira ou Quarta Internacional. Até a Quinta, que fosse. Partido ou Inteiro. Tanto faz. Eram os dois naquele quarto sujo cheio de roupas e rascunhos espalhados, alguns isqueiros já sem gás, e pintura desbotada. Acendiam um cigarro depois e então retornava:

Você estava dizendo, sobre o ciclo PT...


...


- Que foi? - pergunta séria, parando um pouco o que estava fazendo ao ver que estava sendo observada.
- Nada. Estou te vendo. - ele responde, quebrando qualquer dureza que existia entre os dois.

Assim eram, como esse diálogo. Individualidades que se encontraram, e com toda a dureza e aspereza, ainda havia carinho permeando pelos poros. Essa quebra era parte do que os constituía enquanto casal. Ela tentava mostrar para ele aquilo que ele escondia dele mesmo. Ele a via como ninguém antes havia se proposto a ver. Eles se notavam, se percebiam um ao outro com suas nuances todas. Mas a casa era pequena demais para caber o amor dele e as vontades dela.

...

Um ano, alguns meses e minutos depois sentaram em um bar e tomaram cerveja. Muitas, como sempre, com os altos e baixos de sempre. Palavras duras, o debate agora sem carinho - ou pelo menos tentava- , tentavam dizer um ao outro que não eram mais café-com-leite, que o coração não iria mais dizer chega e então poderiam fazer o debate duro exigindo que o outro sustente teus argumentos. Falaram de músicas, mestrado, livros, academia, amigos - quem casou, quem morreu, quem separou... - partidos, conjuntura, um jornal vendido... até que chegaram ao ponto: nós. Debate duro. Ele não falava mais de filhos. Ela já não se incomodava mais com o mundo tampouco com os sofás voltados para a TV. Ainda assim, havia algo sem cabimento naquela relação, e um impedimento para o tentar de novo. Terminaram novamente.
Na despedida um abraço, e um choro involuntário nos ombros dele - ombros que sempre fizeram chorar, não por causar tristeza, mas por permitirem ser triste.
- Me liga quando quiser.
- Ligue você quando quiser.
- Você sabe que eu não vou ligar.

Andaram cada um para seu lado, sem olhar para trás.
Nunca mais se viram, embora tenham se encontrado algumas vezes depois.

domingo, 18 de novembro de 2012

Cinco anos.

Era mais uma tarde qualquer de um dia qualquer e eu estava fazendo algo qualquer e ela me chamou para fazer outra coisa qualquer e eu fui com aquela cara qualquer de tanto faz, como tanto fazia qualquer coisa naquela época. Era fim de semana e coisa alguma me aguardava porque eu não tinha muita paciência para as coisas que tinha.

Entrávamos no carro e ela perguntou:
- Por que você não tem amigas, heim?

Não soube responder. Eu fiquei triste. Não sabia porque não tinha amigas, ou amigos. Não sentia falta, na maior parte das vezes também. Ela fazia perguntas difíceis que eu não sabia responder. Também fazia afirmações que eu não concordava, embora tivesse que me esforçar para dizer o porquê. Eu nunca soube entender o que sentia por ela, talvez porque sequer tivesse a entendido. Uma mistura de reacionária com toques progressistas e um bucado de carinho com casca de pequenas agressividades no formato de palavras e expressões.

Anos depois se passaram e eu tive faculdade-casa-emprego-amigos-amigas-namorados-viagens-outra casa-outro emprego-outros amigos-algumas outras amigas-uns tantos outros namorados-músicas-sábados-lágrimas. Tanta coisa passou desde então e nesse tempo todo nunca houve intenção ou se quer desejo de a tornar santa. De um dia para o outro esgotar suas contradições que não era poucas. Não sei dizer se era legal, se era chata. Tenho dúvidas até se é possível dizer se gostava dela ou não. Acho que na síntese de tudo, sim. Tua autenticidade sempre foi digna de meu respeito. Não interessa se era engraçado, se era bobo, se era ruim, se provocaria caretas tortas ou sorrisos largos: o que tinha para falar ela falava. No duro. Com ela aprendi a apreciar a sinceridade, também sabendo a dor que isso às vezes causava - em si e nos outros.

Fato é que temos muitas coisas em comum, para além da insônia que tantas vezes compartilhamos, quando divulgávamos no almoço uma pra outra a quantidade de horas de sono dormidas na noite anterior. Isso não é fácil admitir quando por um tempo meu maior pavor foi me tornar quem era ela. Hoje parece algo tão distante: segui meu caminho, e por mais clichê que isso seja, talvez algo imensamente sem sentido de se dizer - sobretudo para uma materialista - mas sei que se de alguma forma soubesse como estou hoje, certamente reservaria muito orgulho do que me tornei.

Difícil foi vê-la indo embora, tão lentamente. A vida roubou aquilo que tinha de mais precioso, tua vitalidade. E quando foi, houve lágrimas mas houve muito alivio também. Vê-la sem vida no rosto, sem riso na boca, sem suas palavras duras e certeiras - às vezes equivocadas, mas jamais admitidas por ti ou por mim... vê-la indiferente à vida era algo insuportável! E que passe o tempo que for, a lembrança dela viva é presente em cada centímetro da minha vida.

E vez ou outra eu penso que se me visse agora, talvez não me reconhecesse. Ou talvez visse que tudo que eu precisava era ter um lugar e um momento para mostrar quem eu era, e que quem eu era era mais parecido com ela do que ela pensava - do que eu mesma pensava. Autêntica, viva e com insônia. Entre outras coisas. És aquela que eu tenho como referência de quem quero e quem não quero ser. E que deixa bater uma saudade danada, sobretudo no mês de novembro, que vem forte a lembrança da dura despedida e o último carinho na tua mão gelada. A cena que todo ano retorna a memória, onde ainda é presente a dor sentida com a constatação de um pulso que não pulsava mais.

sábado, 17 de novembro de 2012

Amor Grand Hotel.


O dia a tarde e a noite intensa, trabalho trabalho e trabalho. Cansaço bate forte no corpo que dói todo, os olhos pesam para as costas que berram pras pernas que reclamam pro pé que diz chega.

É uma exaustão que domina todos os sentidos até que, no meio de tudo você aparece e tira o desassossego para botar outro. Com todo aquele sono que toma conta, ainda há tempo para, ao fim dos dias, os olhos notarem o hotel – nosso hotel – ao passar. O grande mar azul ficou sem graça perto daquela lembrança que é possível ter ao olhar pro lado do que até então era mais um prédio grande cinza que tampa a vista, e de repente, de um dia para o outro virou o hotel – nosso hotel. Uma das poucas coisas que se pode dizer que é nossa. Que o futuro não permita que haja nós, que essa lembrança seja permitida ser nossa. Os olhos notam e o sorriso abre como um gesto involuntário.

Foi tanta correria esses dias que nem me dei conta que já fazia alguns dias que não pensava em você. Daí a lembrança veio sem bater na porta e pedir licença e desmoronou os muros, entrou sem pudor algum. Assaltou sorrisos. Volto mais feliz pra casa. É hora de dormir. Momento em que te encontrar é permitido (nos sonhos) ainda que indesejável. Fazer loucuras do tipo prometer o sol se hoje o sol sair e chuva se a chuva cair - bem no estilo Geraldo Azevedo mesmo. Porque é sonho e nesses sonhos tem carinho e coisas doces e cantigas de "se você vier pro que der e vier comigo...". 

Ainda que sem querer, eu sonho. E acordo sorrindo, até começar...
...O dia a tarde e a noite intensa, trabalho trabalho e trabalho. Cansaço bate forte no corpo que dói todo, os olhos pesam para as costas que berram pras pernas que reclamam pro pé que diz chega.

É outro dia.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

De que geração nós vamos ser?


"Adelante corazón, sin miedo a la derrota,
durar, no es estar vivo corazón, vivir es otra cosa."
Mercedes Sosa


Um ano depois que eu nasci, declararam o "fim da história". Eu não sabia disso quando comecei a ver que algo havia de errado no mundo. Não passou nem dez anos e fizeram a novela "Fim do Mundo". Eu acho que naquela época já via que tinha um ou duas, talvez várias, coisas fora do lugar. Foi só na Universidade que tentaram me explicar sobre o tal "fim da história". Esquisito. Tentaram fazer o mesmo com a "classe trabalhadora", com "esquerda e direita" e tantas outras coisas.

Eu sou dessa geração que teve só com sorte a oportunidade de ver um grupo de mil pessoas reunidas por um motivo comum que não envolvesse algo de religioso, futebolístico, uma atração cultural ou algo sendo distribuído de graça - ou seja: pouquíssimas ou nulas experiências em grandes manifestações, assembleias, greves, coisa do tipo. Sou daquela geração que, dos poucos que viram mil ou mais reunidos por um motivo comum, alguns dias depois - e às vezes no mesmo dia - aquele grupo já havia se tornado mil e dois.

Eu sou dessa geração que aquilo que sabe dos movimentos de massa é a partir das falas e de livros e documentos e filmes produzidos por outra geração. Eles - da outra geração - dizem que essa coisa, de movimentos de massa, de classe trabalhadora organizada, existe e eu acredito (acreditar não é a palavra correta, pensando bem. não é pela crença, não é pelo credo, pela fé. eu fui convencida de que é isso, ou não será, a possibilidade de acertar as tais coisas fora do lugar, que com o tempo fui entendendo melhor do que se tratava, e essa coisa de gostar de fim do mundo nunca foi lá meu tipo).

Dessa outra geração, uma boa parte hoje foi para outro lado - da parte daqueles que dizem "isso não dá em nada, menina!". Uns esconderam dinheiro do povo na cueca. Uns viraram reitores e foram até pra Disney, com dinheiro do povo. Teve aqueles que só se renderam a burocracia, e vivem num conforto sentindo que "na medida do possível estão fazendo a sua parte". Parte ainda conta entusiasmada, um tanto saudosista, dos bons tempos, como se isso só fosse coisa do passado. Essa gente gosta de dizer que a minha geração tá perdida. Mas tem uma parte, essa que me interessa muito, dessas outras gerações, que continua firme e forte, lutando ombro a ombro conosco, e com uma paciência revolucionária para transmitir todo o acúmulo que tem para essa geração - a minha - que viu a classe mais se dividindo que unida, aos milhares.

Da infância, eu sou dessa geração que pegou a transição: dos brinquedos de madeira aos eletrônicos. Da rua para o apartamento. Do atari para o playstation. Dos botões - aqueles de jogar futebol - aos botões - aqueles da máquina digital e tantos outros aparelhos. E desde ontem, o tal 14N (primeira greve geral do século XXI ocorrido em quatro países da Europa, e mobilização em cerca de 23 países), passei a ter mais confiança que posso ser da geração que pegou a transição de um período sombrio para um possível ressurgimento de grandes lutas das massas.

E quem sabe, daqui a uns anos, eu poderei dizer que eu fui da geração que definitivamente calou Fukuyama e tantos outros sociólogos, psicólogos, antropólogos e sei lá o que mais, que se apressaram em enterrar aquilo que jamais morrerá - a história. Que quiseram calar aquilo que é impossível de ser calado. Porque faz umas boas centenas de anos que tem um espectro que ronda a Europa - e todo o mundo - e este não sossegará, passe por quantas gerações tiver que passar.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

cum panis.

aquele pra ligar de madrugada mesmo que não vá dizer nada de útil. pra conversar. e ele agir como se não houvesse nada de estranho.
...
- e aí, tudo bem?
- sei lá. tive um pesadelo.
- hmm...
- e você?
- eu estou bem. que foi seu pesadelo?
...

aquele que sobreviveu aos tornados. nós sobrevivemos. apesar de tanto grito, tanta lágrima, tantos dias que pareciam que de nós só restariam ruínas, eis que demos um golpe da história e aqui está: hoje existe um "nós". amorfo, inexplicável em alguns momentos, com algumas cicatrizes delicadas de serem cutucadas, mas existe. não poderia ser diferente.

há uns bons anos atrás, nos perguntávamos porquê lutamos, enquanto andávamos pela rua a caminho de algum lugar. foi você foi quem me tirou da resposta automática "socialismo" ou "fim do capitalismo" e me fez pensar pelo que de fato lutamos: um mundo em que as pessoas possam ser sinceras. tempo de amar. tempo de viver. um mundo que tenha outro tempo. por mais bobo que isso seja  - e você me ensinou a me permitir ser boba, vez ou outra - você me ensinou a sonhar. ou: foi contigo que vi que sonhar é permitido, e mais que isso, é necessário. bem como é nosso dever batalhar por eles.

e nesse sentido de lutar e sonhar, há tempos atrás aprendemos a como construir isso juntos, e fizemos a doce escolha de sermos companheiros. companheiro. do latim cum panis. aquele com quem dividimos o pão e confiamos o suficiente para sentar conosco na mesa e dividir nossas ideias, vitórias, derrotas. é uma das palavras mais lindas que conheço e gosto de te chamar assim.

pois contigo divido o pão, as incertezas, e as poucas certezas também. você é aquele que sei-que-sempre-posso-contar. que me tira de apuros - e vez ou outra me bota em alguns também.

do tipo que me inspira, quando tudo parece sombrio e entediante, a seguir firme.
nem que às vezes precise de um empurrãozinho.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

E aí, quer dizer que está feliz em Natal?

"O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim:
esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem."
Guimarães Rosa

Da experiência de vir para o Nordeste, tenho ouvido muito as pessoas falarem de como é incrível "abdicar de toda sua vida para ir para outro Estado, assumir uma tarefa como essa". Alguns dizem "não conseguiria fazer isso". Acontece que eu não deixei "a vida" para trás. A minha vida veio comigo e a minha mala, para essa nova terra pra chamar de minha. 

As coisas vão acontecendo e nem sempre se trata de fugir de algo ou de buscar algo específico, mas afirmar  os caminhos que se trilham. Isso não significa que seja algo "passivo", que algo do além nos oferece coisas e vamos dizendo "sim". Pelo contrário: somos ativos nesse percurso e a afirmação é algo que nos demanda refletir e afirmar. Mas é algo para-além-do-eu - minha vida, minha carreira, meu romance, minha família. 

E existe a saudade - e como ela existe. Viajar e ficar longe daquilo que entendia-se como nosso "habitat", é também re-conhecer: a antiga casa, a cidade, amigas e amigos, família. Descubro a cada dia uma saudade nova, de coisas que sequer imaginava que sentiria falta. Entendo melhor como fui me tornando o que sou quando percebo que determinada forma de agir era porque estava naquele lugar, com aquelas pessoas. Ficar esse tempo longe me fez revisitar a minha infância, perceber momentos determinantes que me trouxeram para onde estou hoje. Também me vejo lembrando de pessoas que estavam no dia a dia e que só agora longe penso como eram - são - importantes. E claro, penso nas pessoas que gosto muito e o carinho só aumenta. Confesso que muitas vezes a saudade não é constante. A saudade vem em ondas, em momentos de maré alta e maré baixa. E vez ou outra vem uma onda forte de um sentimento forte e honesto, ao olhar uma foto ou um video, que lava os olhos de lágrimas, de forma involuntária. 

Sair do lugar-comum é também se confrontar com coisas novas, que te empurram para novas respostas e novas perguntas também. Conhecer novos cheiros, sabores, paisagens. Encontrar pessoas novas e estabelecer novos vínculos de confiança. Novamente me pego procurando quem seria aquela pessoa que sentiria a minha falta caso algo acontecesse comigo. Ou: quem procurar quando a saudade bate e ficar sozinha em casa torna-se insuportável? Aprender novos mapas, e de repente se ver andando confiante por um caminho que há pouco tempo atrás era estranho.

Além disso, é notável como esse sentimento de "estrangeira", retomado constantemente principalmente no confronto de sotaques e gírias típicas, vem também com uma relativa rápida adaptação, que em pouco tempo me levou a me ver também como natalense-potiguar. Talvez seja coisa da construção do socialismo: somos paulistas, cariocas, santistas, europeus, africanos, guarani-kaiowás. Somos internacionalistas, quando o mundo nos chama - e ele chama, e nós vamos. Talvez por isso seja tão difícil falar em "voltar", como se existisse um lar-pra-chamar-de-meu. De repente, somos tomados por essa sensação de sermos do mundo. 

Estou aqui, e é isso, por enquanto. Constantemente, os amigos e amigas queridos me perguntam:
"Você está feliz em Natal, né?" - alguns afirmam, constatando; outros de fato questionam, preocupados. É pergunta difícil de responder. Nunca soube afirmar com segurança de que sou feliz - e isso não significa que não seja, mas porque acho que isso é uma pergunta-sem-saída mesmo. Talvez porque afirmar "sim, estou feliz", dá um ar de "final". Sinto que as pessoas vêem a felicidade como um estado estático. Pra mim, felicidade é caminho vivo. É quando estamos fazendo as coisas, e encarando os desafios. Felicidade é quando existe movimento. Isso não significa que as coisas estejam fáceis, ou simples, e que não envolva momentos duros, que nos provoquem angústia danada. Mas é quando, mesmo na euforia, olhando pelo vidro da janela do ônibus ouvindo uma música que gosta enquanto corremos para algum lugar que possivelmente estamos atrasados, respiramos e pensamos: estou bem. E um sorriso nos assalta no rosto. 

Pois, feito as considerações, afirmo: sim, estou bem, estou feliz. 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Nossa voz não será estuprada.

Duas notícias me tomaram o dia, e que muito dialogam entre si. Por um lado, o Estatuto do Nascituro, projeto de lei que tramita atualmente na Câmara dos Deputados (para conhecer o projeto clique aqui, e para ver um pouco do porquê é tão grotesco, veja uma boa leitura clicando aqui). Por outro lado, (mais) um caso noticiado de estupro seguido de assassinato de uma mulher (para ver, clique aqui). Ela, Josy Ramos, era professora Universitária, e voltava para sua casa quando foi estuprada e, em seguida, estrangulada.

Um caso horrível, não? O senso comum pedirá para a justiça procurar e punir o monstro que fez isso. Outros, mais reacionários explícitos, irão dizer: "vai saber com quem ela estava andando..." ou "ela devia estar metida com algum safado, ninguém é violentada assim gratuitamente". Deixemos de lado os reacionários, que esses não merecem sequer um comentário. São casos perdidos. Do senso comum, que procura avidamente por um culpado - ou, responsável - eu digo: o Estado. A mídia. A Igreja. E em certa medida, nós, se nos mantermos calados perante tudo isso. Claro, todos em suas devidas proporções.

Casos como o de Josy Ramos acontecem todos os dias. Muitos casos não são noticiados na mídia, não são discutidos sequer entre a família e os amigos da vítima - inclusive e talvez principalmente em casos que o estuprador é parte da família ou dos "amigos". São casos silenciados e abafados. Tentam não falar, pois é constrangedor. É difícil. E nós achamos difícil mesmo, mas é justamente por isso que nós tentamos fazer o oposto: falar sobre.

Todas nós somos, em diferentes medidas, Josy Ramos. Somos violentadas cotidianamente pela mídia que nos trata como objeto; pela Igreja que nos orienta a ser boa mãe e boa mulher; pelo Estado que não nos garante nossos direitos e segurança (e ainda nos criminaliza quando agimos com autonomia perante nossos corpos e vidas); pelos homens que, direta ou indiretamente, tentam nos ordenar: fiquem em casa, andem sempre com alguém, veja como se veste... ou te estupro, estrangulo, te mato. E nós, em certa proporção, somos responsáveis quando reproduzimos o silêncio e deixamos que matem mais e mais nossas companheiras.

Nos acostumamos a não nos revoltar ou sequer se indignar pelo fato de viver em uma sociedade que nos impõe ser mãe sem nos dar o mínimo de assistência para tal. De ser uma boa esposa, mesmo quando nosso marido nos agride - algo fizemos de errado, para isso, não?. Nos habituamos a uma mídia que nos diz como devemos nos vestir, nos comportar, quanto devemos pesar, como devemos ser caso desejemos ser "bem comidas". Devemos organizar as nossas vidas para sermos "bem comida". E a sociedade, com todo o apoio da mídia, nos impõe ser "bem comidas", pois caso contrário somos ressentidas e não sabemos viver - aliás, as feias que agradeçam aos estupradores, já dizia o infeliz Rafinha Bastos. Nos habituamos ao "toque de recolher" que para nós, mulheres, é cotidiano, caso não queiramos "dar motivo" para sermos estupradas e estranguladas. E se somos obrigadas a ultrapassar esse horário, porque trabalhamos ou estudamos ou simplesmente queremos nos divertir, temos que nos habituar a andar com medo por ruas escuras e abandonadas, pois o Estado não é capaz de (não quer!!!!) nos prover segurança.




Tentam estrangular nossas vidas de várias formas, todos os dias, ao nos reduzir a meras reprodutoras ou meras "boas esposas". E o Estatuto do Nascituro é mais um exemplo disso. E eu não vou nem entrar aqui em questão se as células embrionárias são uma vida ou não. Acho que vale as pessoas procurarem artigos de companheiras que destacaram muito bem as consequências desse projeto. Aqui, destaco alguns absurdos apenas: o fato de que não será mais permitido a realização de aborto quando em casos de risco na gravidez ou em casos de estupro. Assim, se uma mulher corre risco de vida, ainda assim buscará salvar o feto. E, em caso de estupro, a mulher deve permanecer com o filho - isso levando em consideração que muitos estupros envolvem casos de pedofilia, de jovens mulheres que são assediadas por familiares e vizinhos e serão crianças obrigadas a gerar criança. E mais, o aborto espontâneo (cuja probabilidade é de 25% das gestantes no início da gravidez) será investigado como caso de polícia.

Absurdos à parte, o que ressalto aqui é: esse mundo, não é pra nós, mulheres. Esse mundo não é para nós e para nossos companheiros, tampouco. Somos nós que fazemos esse mundo, e então seus atuais donos nos retornam com migalhas de tudo aquilo que nós fizemos, nos viram as costas, nos fecham as portas, e ainda nos dizem: calem-se. E isso não significa que nós nos nos calamos, ou sequer calaremos.

O que eles não sabem, os tais "defensores da vida" - também conhecidos como defensores da moral e do bom costume - , é que nossas vidas não são estranguláveis. Quando alguma Josy Ramos é estuprada, ou assassinada, ninguém verá esses "defensores da vida" que defendem o Estatuto do Nascituro em defesa de sua vida, encerrada de forma tão violenta pelo machismo que mata todos os dias. Podem ter certeza que vocês não verão. Mas, quando alguma Josy Ramos é estuprada, ou assassinada, podem ter certeza que são mais duas ou três, ao menos, "Josy Ramos", que passam a se indignar. As indignações existem - eu sei que existem - mas precisam ser transformadas em voz e ação. Urgente.

O nosso feminismo vem da luta pela emancipação humana, é a luta pelo fim de toda e qualquer forma de opressão. E quando formos milhares, ombro a ombro, lado a lado, homens e mulheres na luta pela liberdade, teremos força para tomar esse mundo que é nosso, esse mundo que nós fazemos com nossas mãos e assim, nossas vidas serão livres. Essa é a nossa luta: minha e tua que lê agora, e que por isso solicito e convoco para não que não permita que matem mais uma companheira nossa.
 
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