sábado, 30 de novembro de 2013

Não se entregue


No te entregues corazón libre, no te entregues
Eu sei que a tua dor dói
A ponto de teu pulmão fechar
E teu corpo adoecer
E se eu pudesse arrancava ela de ti.

Mas você precisa entender
O mundo tem muito mais dor
Que essas que você guarda com cuidado
Debaixo de seu travesseiro

Você precisa entender
Que alimentar essa tristeza é egoísmo:
O mundo tem muito mais alegria
Quando você está no meio.

Corre, corre para a rua
Que a vida não vai esperar
As lágrimas secarem
(elas secam e outras vêm).

Basta de se afogar
É hora de transbordar

Que o outro mundo
Tem pressa pra nascer.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A última vez


Foram setenta e quatro berros até entender que aquele olhar não era paixão.
Sete socos para entender que não foi o calor do momento.
Doze empurrões para entender que não foi algo que ela fez errado.

Vinte e nove mãos firmes no braço para entender que não era porque ele tinha uma personalidade forte.
Três tentativas de asfixia para entender que aquele olhar não era de paixão. Era ódio.

Entender. De fato, não entendia nada daquilo. Chegou a pensar ser uma doença genética. Afinal, aconteceu com sua mãe, tia, vó. Gerações passaram por isso e ela, que jurava que jamais permitiria algo do tipo, carregava em seus ombros o peso desses números: setenta e quatro, vinte e nove, doze, sete e três.

Definitivamente, aquilo não era coisa de se entender. Dessa compreensão todas saem analfabetas da escola. Não há uma aula que diga: não precisa ser assim. Coisas que apenas a luta nos ensina. E nessa batalha ela estava só, e tinha sido derrotada. Acariciando sua pele tomada por uma mancha rocha que pesava mais que um piano, prometia: a última vez. E repetiu, quinze vezes. A última vez.

Ela tentava desfazer o nó na garganta que custava a sair. Pensava insistentemente, tentando lembrar quando foi que entrou para a terrível estatística que milhares de mulheres adentram silenciosamente e sofridamente.

A última vez.
A última vez.
A última vez.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Naquele instante

Naquele instante
do abraço
o coração ficou quente.

Naquele instante
do olhar
a cerveja ficou de lado.

Naquele instante
do beijo
o mundo pareceu no lugar.

Naquele instante
do sexo
o instante pareceu eterno.

E fui embora
sem olhar pra trás
nem um instante a mais.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Dos caminhos tortos da luta

Uma nova etapa se inicia: as lutas aumentam e a repressão também. É o inicio de uma nova era, mas 
as olheiras,
os ombros pesados,
os corpos cansados 
vem de outras batalhas.

Poetas falam do horror desse mundo - da miséria, da morte e das opressões. 
Falam de um outro possível, de vida plena, justiça, igualdade. São poucos que falam do caminho, do percurso, do meio que existe entre o horror desse mundo e do possível outro. Poucos falam da ponte, que é dificil e cheia de tropeços.

Os últimos dias apontam essa ponte de forma latente. As lutas não são de hoje, nem a repressão é. Mas hoje se apresentam de forma mais intensa. O que antes ocorria distante dos olhos, no exterminio do campo, das aldeias indigenas, das periferias, hoje ocorre nas principais avenidas das grandes capitais. E torna pauta das midias e mesas de bar.

Assisto os rostos espantados daqueles que entraram encantados com a promessa de um outro mundo, sem dar tanta atenção a essa ponte - dura e dolorosa - que tem antes. Falavam de socialismo como algo utópico e como um sonho. O cenário hoje mostra que isso não é brincadeira e que há violência. Que um atraso, uma ausência, uma falha, pode custar a vida e a liberdade de alguém. Que nós temos medo mas seguimos corajosos, enquanto eles tremem de medo e seguem latindo. Latem forte. Às vezes mordem. Mas sabem que será impossível nos derrotar. 

Alguns desiludidos ou fatalistas chegarão à conclusão que a revolução não é só poesia. Ouso questionar.
A poesia não é só beleza;
A beleza não é só alegria.
E a alegria não está só na paz.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Ensaio sobre a saudade

Eu tenho essa saudade grande e de repente me surpreendo com uma longa e irrelevante reflexão por sms, falando de especulação imobiliária e de transporte público ou sobre as dinâmicas que os grupos insistem em fazer nas aulas de psicologia e, de um jeito estranho sei que esse é teu jeito estranho de dizer que também tem saudades.

São coisas assim, banais, que me dão saudade, de quando falávamos de especulação imobiliária, transporte público e outros assuntos tão importantes e tão irrelevantes, enquanto deitávamos na cama adiando o inadiável - a agenda lotada de coisas pra fazer, e o relógio que insistia em parar enquanto estávamos naquele quarto, cheio de tantas histórias.

Então a gente diz coisas bonitas e ridículas dessas que as revistas e livros e novela e filmes bobos dizem por aí, coisas como: "é preciso aprender a ter saudade". Grande bobagem. Coisas que a gente inventa para enobrecer nossas misérias, tipo aquela história de que trabalhar muito e ganhar pouco é algo digno.

Saudade se fosse boa não haveria tanto prazer em "matá-la". Saudade se fosse boa não apertava o peito e fazia a gente se sentir pequenininho, pequenininho. Insuficiente. Incompleto? Um vazio, talvez.

É uma coisa, essa coisa de sentir saudade. A gente pode sentir falta de muita coisa que nunca teve, mas saudade é aquela falta de algo que a gente já teve ou sentiu e nos foi tirado, seja por algum tempo ou pra sempre. Então são pequenas ou grandes alegrias que a gente nem sabia que podia ser capaz de sentir e de repente "tchum". Aparece aquele sentimentozinho maldito de bom, aquela cor na vida cinza e aí ferrou. Você acaba de descobrir um jeito novo de ficar alegre, ou uma forma nova de viver a alegria. E não quer mais ficar sem. Saudade tem a ver com vida vivida, e isso acho que a gente já tem um bocado suficiente pra sentir saudade.

Mas é isso, a vida segue e com o tempo a gente vai tirando lições. Uns aprendem que é melhor não viver grandes alegrias, pra não sofrer grandes perdas ou saudades. Outros para aproveitar ao máximo aquilo que vem de bom pelo tempo que isso durar. Outros nunca aprendem, também.

A verdade é que não tem tantos mistérios, nem muito o que ser dito.
Às vezes é só uma questão de se permitir sentir.
E hoje eu estou feliz com essa permissão que você me deu e eu me dei também, de sentir saudade e tristeza sem compromisso com a alegria.

domingo, 29 de setembro de 2013

É preciso resistir.

Os passos incertos dela pisam o caminho firme. 
A certeza que não tem 
Estão nos olhos, mãos, pés e coração de seus companheiros.
Ela enxerga e isso acalenta.
Acalenta, mas dói por não encontrar em si tal certeza.
Ainda assim, 
Seus passos incertos seguem pisando o caminho firme.

Seus companheiros insistem em fazer do caminho incerto
Um caminho firme pra ela pisar.


É, companheira, não é sempre que dá. Hoje não deu. Não é fácil mesmo, essa coisa de seguir em frente, quando nosso mundo cotidiano parece nos empurrar o tempo todo pro chão. Todo dia. Temo dizer que pra poucos seja, coisa fácil.

Talvez um dia, que não será amanhã nem em tão pouco tempo, pessoas falarão - e talvez nem estaremos aqui pra dizer ou escutar -  sobre esse período de trevas que atravessamos. Talvez um dia a gente entenda que não é natural viver em uma sociedade doente e que pra conseguir isso todos nós somos obrigados a adquirir uma força brutal cotidiana.

É preciso resistir
o preço da comida que sobre no mercado
o preço do bilhete da passagem que sobe
a especulação que faz o preço do aluguel da casa subir
o preço da escola das crianças que sobe
o trabalho precarizado que não acompanha tudo que sobe
a fila do hospital sem sabonete
o sucateamento da universidade
o medo de voltar pra casa
o tempo limitado que sobra pra amar
a medicalização de nossas angustias diante disso tudo
a ameaça de morte,
o terror psicológico,
a prisão e repressão daqueles que buscam resistir coletivamente.

É preciso resistir, mas nem sempre dá.

.

A verdade, companheira, é que você não pode fugir da luta. Ela está intrínseca a tua realidade e condições objetivas.
Talvez para tuas colegas de faculdade seja uma opção ideológica. Escolha teórica metodológica. Não pra ti. Viver é uma luta - e tu pode até optar, em fazê-la coletivamente ou não, mas não dá pra fugir.

Não dá.
Mas hoje você tentou.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Voa longe, Arthur.

como pode alguém
de vida tão besta,
ter esse olhar tão distante,
como Arthur tem essa noite?

sonhos que parecem ser
menores que ele,
(e olha que Arthur nem é
tão alto assim).

mas nessa noite, 
Arthur olhava tão longe,
sabe lá para onde,
sabe lá porquê.

o pequeno quarto de Arthur
não tem portas e nunca soube porquê
talvez seja pra vez ou outra deixar
o pensamento voar longe.

domingo, 11 de agosto de 2013

Casa Perfeita do Casal Imperfeito

Deliciosa as tardes naquela casa dos fundos, naquele bairro longe, daquela cidade vizinha. Eles não eram perfeitos, e tinham lá seus problemas... mas de alguma forma, conseguiram construir uma casa e uma vida muito bonita juntos. Garantindo a individualidade de cada um, reconheciam que suas vidas estavam misturadas, as contas, as roupas - ele com a camiseta dela e ela com a cueca dele, a rotina que um ajudava o outro a lembrar e a comida... ah! A comida.

Almoçávamos e conversávamos, às vezes também simplesmente ficávamos em silêncio. Eles preparando e às vezes lembrando de alguma coisa que precisava ajustar na casa e fazendo uma breve conversa agradável sobre isso. Eu ficava assistindo, como quem assiste a uma série preferida na TV. O jeito que ele pegava a cebola na geladeira de um jeito que pudesse de alguma forma passar pelo corpo dela e mostrar que a deseja. O jeito que ela o abraçava por trás enquanto ele preparava o molho, para ver como estão indo as coisas “do lado dele”. Às vezes consultavam a receita na internet. Cada vez que ia visitá-los era um prato novo.

Fazia calor. Fazia calor naquela cidade quente, e fazia calor porque aquela casa, com aquele amor torto – e torto porque não era convencional, mas era inquestionavelmente sincero – meu coração se aquecia e eu tinha esperança de um dia talvez viver aquilo com alguém. Muitas vezes eu não gostava do prato que eles preparavam – era muito fresca com comida. Mas quando estava pronto eu resolvia que iria comer um pouco por educação, e quando comia era tão gostoso. Eles faziam eu gostar de coisas que eu normalmente acharia desprezível. Passas. Salada com manga. Mandioquinha. A vida com alguém.


Eu comia aquelas refeições com tanto gosto, como se quisesse engolir a comida toda, a casa deles, a vida deles. Eu não queria trocar de lugar com nenhuma das partes. Eles eram essencial para aquilo ser do jeito que era. Poderia trocar a minha vida de personagem para me tornar uma espectadora da vida deles. Ser platéia para o resto da vida. Era porque ali não tinha idealizações e imperfeições eram permitidas, era porque não havia expectativas inatingíveis, era porque ali havia um espaço de resistência frente ao mundo selvagem lá fora que aquele casal parecia tão perfeito. O amor, puro.
 
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