a universidade está rodeada de comentaristas. a instituição historicamente conhecida como o espaço de produção de conhecimento, produz atualmente grandes-comentaristas-de-coisa-qualquer.
pergunte a um deles sobre aborto, que trarão um artigo científico ótimo com dados estatísticos.
imparcial, é claro (mas que provam seu ponto de vista).
pergunte sobre a tropa de choque que chega para desapropriar moradores, e eles darão uma resposta acadêmica exemplar - ponderando "os dois lados". chegarão a belíssima conclusão de que nem um, nem outro estavam certos. ambos estavam errados. certo é ele, é claro, o comentarista.
pergunte também sobre a educação, a saúde, o meio ambiente, a fome, a miséria... e ele dirá: realmente, está um caos. e trará explicações excelentes de como o governo é ineficaz, as pessoas são ignorantes e o mundo está permeado de injustiças. terá uma ótima citação que diga que as coisas de fato vão mal, mas que "veja bem, não podemos também cair pra o outro lado de...". certamente envolverá nietzsche no meio.
o comentarista terá resposta para tudo. saberá inclusive chamar de tolo e ingênuo aqueles que tentam superar essas injustiças, analisando e justificando porque cada ação dele será em vão.
só não pergunte ao comentarista o que fazer. ele sabe analisar as coisas muito bem, mas não quer se meter a dizer o que os outros devem ou não fazer - afinal, isso é autoritário.
porque tem caso que é melhor só imaginar.
tem caso que imaginando é mais divertido.
tem caso que imaginando é menos perigoso.
não que minha imaginação seja segura - ela não é, e leva para caminhos tortuosos e complexos, nada lineares. talvez por isso tenha medo de te colocar pra viajar dentro dela comigo. pior ainda saber que o convite pra entrar na minha é um convite, por consequência, talvez, pra entrar na tua - e gostar de você desse jeito (e desse teu jeito...) é estar em duas montanhas-russas ao mesmo tempo, que cruzam e distanciam o tempo todo - porque temos tudo e nada em comum. imagina só nós dois fazendo essa viagem em um só carrinho!
e eu não falo.
e eu não faço.
e eu não, não, não. - e você adora dizer que eu não, não, não, porque torna teu sim, sim, sim mais poético - mesmo que para isso você tenha que abafar todos os meus "sims" pra você.
eu não nego meu não, porque sei que você sabe que não é simples assim - coisa de dizer sim ou não. você diz que eu digo não pra tua cerveja, pra um simples caminhar na praia, mas sabe que tua cerveja e teu simples caminhar na praia vem com muito mais coisa - é uma passagem pra montanha-russa cheia de poesias, e brigas bonitas e intensas e vida de dores e doçuras. é convite pra intensidade.
poderia ser mais frequente do que o comum naquela cidade quente, mas para ela aquilo nunca fez sentido: todo passado deixa uma marca, e como pode chover tanto e a vida seguir, assim? há de ter ficado alguém com seu cabelo molhado, ou um guarda chuva que não resistiu e quebrou.
desde criança guarda pequenas coisas, anota alguns detalhes, para que nunca se esqueça das dores e alegrias, mesmo as pequenas. medo de esquecer, medo de não conseguir transformar em aprendizado aquilo que viveu, sentiu, sonhou. talvez era isso. cuidava de sua memória como quem tentava cuidar de seu futuro.
e então amou uma vez. e guardou cada memória. e amou a segunda, a terceira, a quarta... de repente tantas histórias foram se juntando, e a bagagem já era pesada demais para se arrastar. mas insistia em levar tudo - os papéis, os sorrisos, as lágrimas, os presentes, as músicas, os filmes, os livros, as conversas, os bilhetes, as saudades, os ingressos, embrulhos, imbróglios. de repente o passado foi sufocando todas as possíveis novidades fazendo com que elas fossem pra um "lugar comum" do gostar. de repente ninguém tinha mais disposição pra carregar com ela aquela bagagem pesada de velhas novas histórias.
e então quando amou de novo tentou experimentar lançar-se um pouco no desconhecido. se permitiu conhecer uma nova canção junto com. a ler um novo poema. a escrever uma nova história, por fim (ou começo?). decidiu por não carregar mais aquela bagagem pesada. algumas coisas jogou fora, outras guardou numa caixinha velha, que talvez nunca mais abra, mas é bom saber que algumas memórias ficaram ali guardadas.
até que então, amou como nunca havia amado antes.
enfim, permitiu outrar-se. não era a proposta, desde o início?
ele diz, com um olhar profundo de menino:
- isso parece que não é real...
ela responde, com um sorriso e cara de experiência.
- isso é mais real que muita coisa.
silêncio. em seguida, ele retruca, como quem entende tudo:
- materialista!
(e ela imagina, então, que meses depois se ele perguntar quando foi que a conquistou, diria sem hesitar que foi com essa resposta)
mapa que eu detesto duas vezes: papel que constata os quilômetros que nos separa. papel que, por ele e outras coisas, te fez ir pra tantos quilômetros longe.
mas detestar mapas, que coisa tola! se não fosse o mapa, se não fosse a tua economia solidária, o meu marxismo... se não fosse o sol, se não fosse torto, se não tivesse o desencontro... talvez a gente não teria se encontrado. é isso que falamos, para nos conformar ou para tornar o negócio mais lógico. não foi destino, mas uma série de pequenas histórias fragmentadas, ou várias histórias que seguem uma linha lógica que fizeram, há pouco mais de um mês, tua geografia e a minha psicologia se encontrarem.
mapas. eu nunca havia reparado neles direito, e agora eu olho pra tentar entender o que te fascina tanto nesse pedaço de papel.
Posso até me acostumar da gente se divertir...
e se temos três dias, ou se esse ano tem mais feriados, ou se os nossos aniversários caem em sábados. e se temos mais um ou dois encontros ou se é pra sempre. e se faltam dez dias, nove ou oito.
acho que posso me acostumar, se todo reencontro tiver sempre cara de sábado. se tiver sol, água de coco. se tiver colo. se tiver corpo. se tiver nossos beijos com olhos, bocas, mãos, pés, pernas.
e a saudade só se torna suportável quando se sabe que em breve o reencontro a matará, sufocará e deixará espaço só para o carinho.
há os dias alegres, em que digo: a solidariedade, o companheirismo, a força, o entendimento de não estar sozinho, indignado com tamanhos absurdos do mundo. a sensação de vitória, de conquista de um grupo, de uma classe, de um povo. a sensação de ter escrito a história com as próprias mãos.
mas não, não venho de dias alegres. não são tempos alegres. para além do espelho, vejo olhos cansados. olho, braço, perna, corpos. corpos cansados resistindo, mantendo erguida aquela - ou aquelas - bandeiras.
é tempo de corpo cansado.
de companheiros ameaçados, violentados, desaparecidos, assassinados.
de dor de quem não come bem, não dorme bem, não vive bem há tempos.
há os dias alegres, em que leio aqueles que podem trazer experiências passadas, lições diversas de tempos distintos. dias de sair com as companheiras e companheiros em marcha, de puxar palavras de ordem com a força que não é tua, mas de todos aqueles.
mas não, não venho de dias alegres. tenho tido pouca força para o berro, pouco ânimo para os livros. é tempo de lembrar que isso não é uma brincadeira, ainda que há tempo para o riso. é tempo de lembrar que isso não é teoria e que isso acaba até em morte.
luta - ou guerra - de classes.
chamam de opção. opção de classe. é bonito, mas não sei bem como é feita essa escolha. há erros, sem dúvida, dos dois lados.
há mãos, pernas, corpo sujo de sangue dos dois lados.
é uma luta, é uma guerra, que se espera? mas entre estar no meio daqueles que se sujam de sangue buscando a liberdade do povo e aqueles que o fazem para buscar silenciar aqueles que denunciam atrocidades, que buscam calar e sujeitar trabalhadoras e trabalhadores que buscam livrar-se de alguma forma da condição de exploração a qual são colocados brutalmente, eu fico com o primeiro grupo. opção de classe. é isso?
"Estou cansada. Meu cansaço vem muito porque sou pessoa extremamente ocupada: tomo conta do mundo. Todos os dias olho pelo terraço para o pedaço de praia com mar e vejo as espessas espumas mais brancas e que durante a noite as águas avançaram inquietas. Vejo isto pela marca que as ondas deixam na areia. Olho as amendoeiras da rua onde moro. Antes de dormir tomo conta do mundo e vejo se o céu parece azul-marinho intenso, cor que já pintei em vitral. Gosto de intensidades. Tomo conta do menino que tem nove anos de idade e que está vestido de trapos e magérrimo. Terá tuberculose, se é que já não a tem. No Jardim Botânico, então, fico exaurida. Tenho que tomar conta com o olhar de milhares de plantas e árvores e sobretudo da vitória-régia. Ela está lá e eu a olho.Repare que não menciono minhas impressões emotivas: lucidamente falo de algumas das milhares de coisas e pessoas das quais tomo conta. Também não se trata de emprego, pois dinheiro não ganho por isto. Fico apenas sabendo como é o mundo.Se tomar conta do mundo dá muito trabalho? Sim. Por exemplo: obriga-me a me lembrar o rosto inexpressivo e por isso assustador da mulher que vi na rua. Com os olhos tomo conta da miséria dos que vivem encosta acima.Você há de me perguntar por que tomo conta do mundo. É que nasci incumbida." [Clarice Lispector]
TU
"Se você tivesse chegado antes, eu não teria notado. Se demorasse um pouco mais, eu não teria esperado. Você anda acertando muita coisa, mesmo sem perceber. Você tem me ganhado nos detalhes e aposto que nem desconfia. Mas já que você chegou no momento certo, vou te pedir que fique. Mesmo que o futuro seja de incertezas, mesmo que não haja nada duradouro prescrito pra gente. Esse é um pedido egoísta, porque na verdade eu sei que se nada der realmente certo, vou ficar sem chão. Mas por outro lado, posso te fazer feliz também. É um risco. Eu pulo, se você me der a mão."
Veronica H.
ELE
"Tanto pasmo, depois. Sozinho no apartamento, domingo à noite. Todas as coisas quietas e limpas, o perfume adocicado das madressilvas roubadas e o bolo de chocolate intocado no refrigerador — até a televisão falar da explosão nuclear subterrânea. Então a suspeita bruta: não suportamos aquilo ou aqueles que poderiam nos tornar mais felizes e menos sós. Afirmou, (...), reformulou, repetiu, acrescentou esta interrogação: não suportamos mesmo aquilo ou aqueles que poderiam nos tornar mais felizes e menos sós? Não, não suportamos essa doçura."
Caio Fernando de Abreu
NÓS
"É bom olhar pra trás e admirar a vida que soubemos fazer
É bom olhar pra frente, é bom nunca é igual
Olhar, beijar e ouvir, cantar um novo dia nascendo
É bom e é tão diferente
Eu não vou chorar, você não vai chorar
Você pode entender que eu não vou mais te ver
Por enquanto, sorria e saiba o que eu sei eu te amo
É bom se apaixonar, ficar feliz, te ver feliz me faz bem
Foi bom se apaixonar, foi bom, e é bom, e o que será?
Por pensar demais eu preferi não pensar demais
dessa vez..
Foi tão bom e porque será
Eu não vou chorar, você não vai chorar
Ninguém precisa chorar mas eu só posso te dizer
Por enquanto, que nessa linda estória os diabos são anjos"
VÓS
"...E então você não quis nada disso. E parou com a possibilidade de dor, o que nunca se faz impunemente. Apenas parou e nada encontrou além disso. Eu não digo que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta. Não esta sua voz baixa e doce. E eu não choro, se for preciso um dia eu grito, Lóri...... Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos.Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada.Temos construído catedrais e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda......Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que a nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe......Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isto consideramos a vitória nossa de cada dia..."
Clarice Lispector
ELES
"CUIDADO Com Aqueles Que Censuram Fácil
Eles Têm Medo Daquilo Que Não Conhecem
(...)
Cuidado
Com O Homem Comum
Com A Mulher Comum
CUIDADO Com O Amor Deles
O Amor Deles É Comum, Procura O Comum
Mas Há Genialidade Em Seu Ódio
Há Bastante Genialidade Em Seu
Ódio Para Matar Você, Para Matar
Qualquer Um.
Sem Esperar Solidão
Sem Entender Solidão
Eles Tentarão Destruir
Qualquer Coisa
Que Seja Diferente
Deles Mesmos"
(Bukowski, Genialidade das Multidões)
mensagens, cartas, presentes, poemas, fotografias, desenhos, músicas, filmes, memória, quadrinhos, bilhetes de cinema, passagens de ônibus e avião. o tempo vai passando e são diversas as lembranças, materiais e imateriais, que vamos juntando de amores-para-sempre. histórias, sejam elas novelas, crônicas, romances, documentários... às vezes é curto e intenso como um hai-kai. às vezes longo, belo e doloroso como uma ópera.
depois de tantos amores-para-sempre percebemos que os amores não são para sempre, ao mesmo tempo que o são. passamos pela vida de tanta gente, tanta gente passa por nossas vidas, e seguimos partindo e chegando em vidas alheias, assim como chegando e partindo estão as pessoas em nossas vidas. em algumas chegamos sem pedir licença, invadimos a casa, o coração, o corpo inteiro. e de repente vamos embora, deixando a escova de dente semi-usada e uma saudade imensa. às vezes uma conta de telefone pra pagar de ligações de amor e desamor.
os anos vão passando e a gente passa a se esforçar para lembrar de algumas pessoas, outras continuam aparecendo constantemente, todos os dias, na memória. tem as que ressurgem, retornam ao ouvir uma música ou ver um filme antigo. ou encontrar um bilhete de cinema velho ou um recado cotidiano num papel amarelado do tipo "fui comprar pão". e vem com aquele grande e pesado: "e se". "e se fosse ele?". "e se não era pra ter sido do jeito que foi?". "e se tentasse de outro jeito?".
"e se". "e se eu pudesse entrar na sua vida?" - nosso grande inimigo. é duro de aceitar que as coisas são como são, que a vida é bela pelos belos acasos e maldita por esses imprevistos e armadilhas também. sorriso bonito. carinho. troca de olhares. conversa agradável. grandes expectativas - "e se". "e se". "e se." e de repente é mais alguém que mora longe, que já tem outro alguém, e que, e que, e que. mais um "e se". mais um "talvez seja diferente". sempre é, nunca é.
às vezes, o coração pede uma trégua. um sossego. uma praia, um por do sol, uma água de coco, com alguém legal, que pareça ficar dessa vez. sem "e se". às vezes o coração só pede um pouquinho de certeza. só um pouquinho, nem que seja pra respirar um pouco dessa vida angustiante de incertezas e acasos e emoções. uns dias, um mês, um ano de alegria e segurança.