terça-feira, 16 de outubro de 2012

Cara ou Coroa?

Decidida, pensou: "basta!"
Embora não tenha verbalizado, seus olhos franziram traduzindo seu pensamento.
"Basta!" - repetiu, ainda mentalmente.
Decidira que iria voltar para casa. Chega, já deu. Hora de juntar os trapos e ir.


Foi então que viu que não tinha para onde ir. Não existia mais "voltar", apenas "ir". Ela e o "casco", a velha mochila manchada com suco de goiaba do mês passado, até hoje sequer um paninho passado. Um maço velho num bolso quase não usado, pra lembrá-la o tempo inteiro do vício antigo que abandonara. Passagens de ônibus e avião espalhados, uns amassados, dobrados, rasgados. Descobrira jeitos diferentes de passar o tempo nos caminhos.

A vida então era um amontoado de lugares com um amontoado de significados. Lugares em que se viveu momentos. Momentos em que trouxeram significados - seriam estes os motivos de retornar aos lugares? Ou fugir, talvez?

A decisão de "ir", levava a uma questão existencial, e na preguiça de preocupar-se com perguntas existenciais, apostou seu futuro na moeda.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

eu não morreria por você

bota água pro café! escuta esse cd. vamos dormir? acorda que tá sol. fila do pão. férias na argentina. dá uma olhada nesse trecho aqui. skol ou brahma? estamos atrasados! o que tá pensando agora?acabou o cigarro. esse teu jeito... vamos na sessão das 21h. você não sabe o que aconteceu hoje!

Eu não morreria por você. Nosso papo não vai por aí. Falar de você, e não falar de vida, erro enorme de se cometer. Eu faria planos pruma vida - ou duas, se assim coubesse.


Você me faz falar, escrever. você me deixa a vontade pra abrir a boca e contar histórias... o que torna as coisas difíceis porque é uma delicia também ficar em silencio ouvindo tuas historias, ou quando desemboca a falar e falar besteiras, que no meio delas se escondem um jeito bonito de dizer que gosta de mim.

De vez em quando eu tiro a casca. Não é fácil sustentá-la o tempo inteiro. É gostoso ficar escondida, mas um desastre não ser encontrada de vez em quando.
Eu te agradeço por ter me encontrado, por mais que eu esteja nessa fase de tamanha insistência em sustentar um esconderijo - sussurro eu, com tom de quem diz covarde: saudade.



Você me bota na vida de novo. Você me deixa grande ou pequena, o que sirva pra fazer eu ir mais além.

Você bota cor na tela cinza.
Eu não morreria por você.
Eu, certamente, viveria mais.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Áspero.

(do celular) - você nem me manda mais mensagens...
(do olhar) - eu te mando o tempo todo, você é que não tá lendo.
(da fala) - acho que tu não escutou, mas disse que te amo. uma bela metáfora para nossa situação.

- - - -

olhávamos do lado de fora, pela janela, um mundo que acontecia dentro de um salão. pessoas dançando, de tantas idades. bancários, professores, donas de casa, aposentados, estudantes, portuários, servidores públicos...? que era aquela gente, que em meio a tanta loucura, consegue reservar um tempo para dançar? pareciam felizes, pareciam pessoas comuns que brilhavam.

a linda vida medíocre dos miseráveis.


sábado, 1 de setembro de 2012

à flor da pele

há os dias em que se busca simplesmente cumprir as ta-re-fas. e não se trata de dias frios e mecânicos, mas de saber a hora em que os compromissos e as responsabilidades devem consumir cada gota da sua força para que saiam, para que aconteçam.
mas há aqueles dias em que há mais sentimento (sentido?) em tudo - mais alegria, mais tristeza, mais dor, mais amor. estar à flor da pele, sentindo que uma brisa mais forte seria capaz de desmoronar em lágrimas, em cacos, em seja-lá-o-que. às vezes é prender o nariz e mergulhar, mergulhar fundo sabe lá onde, sabe lá porquê. - mas acontece que a gente sabe - a gente sempre sabe - aonde e porquê.
existe o dia que se distribuir em cacos é permitido, principalmente se tiver alguém para recolhê-los.

a cabeça gira. é novo passar por uma experiência que traz tantos pensamentos e não tantos ouvintes. sufocada com ideias, planos, compreensões, dúvidas. em meio a tanta gente, sentir-se só. e em meio a solidão, sentir-se um clichê. um clichê que se sente só em meio a uma multidão.

- - -
pausa

novos sabores levados a boca, novas texturas ousando percorrer pelas mãos. novo som, novo cenário. novo corpo que abraça corpo novo, nova boca que encosta na boca nova, de sabor novo. 
a fruta doce demais, tão doce quanto o toque e o mar salgado expulsa o casal.
- aqui não. - dizia o mar, moralista e metido, que mantinha a ordem na praia. uma praia para família - era o que acusavam as pessoas em volta.
o turismo tampouco era convidativo - sabia que ali não era lugar dessas coisas. ali não tinha espaço para outras riquezas que não as em dólares.
a árvore gigante tampouco queria abrigar amor algum. tinha pressa pra fechar, tinha preço para entrar. os olhos atentos dos comerciantes pouco ligavam para os olhos cheios de desejo. estavam ocupados demais com seus próprios desejos - estes tampoucos relacionados a amor ou paixão. estavam ávidos por um comprador disposto a deixar um bom dinheiro. 
"roubam-me a cidade, pois eu roubo-lhes o dinheiro" - pensam.
respiro fundo para não deixar que este olhar e a cidade tomada pelo consumo me consuma. 
"é a pausa" - tento memorizar, e me disciplinar para  não perder o foco, cujo foco era perder o foco.

então o casal continua a procura de um refúgio.

- - -
continuação da pausa


pés que caminham seguindo a areia que corre. mão que encontra mão, mar que encontra pés. e as bocas que se encontram novamente e tudo pára. pára?!?!
não, não, não! tudo gira. e a cada giro, era uma coisa que saía da cabeça. aprendera enfim um novo jeito de meditar. o mar engolia os pés e as bocas buscavam engolir umas às outras, num desejo súbito de fazer tudo sumir e nada mais além daquilo existir. o tempo que durou, não se sabe - cinco, dez, trinta minutos? 
de sons, eram apenas os ventos alísios que vinham em alguns momentos, e a respiração - necessária e pontual. os cabelos e o mar tentavam roubar a atenção, chamar de volta a realidade e tudo aquilo: o mar, o beijo, os ventos alísios, os cabelos, os pés, as mãos, os toques - oscilando entre tímidos e ousados - se somavam em uma linda orquestra silenciosa.
do céu fez surgir um arco íris, e a chuva lembrou que a alegria tem tempo de acabar.

fim da pausa
- - -

e sabe lá porquê, olhar pro mar traz reflexões longes, distantes, pra além de quando o céu se mistura com o oceano. mas é fechar os olhos, respirar fundo e levantar. tirar a areia que se juntou ao corpo, respirar fundo novamente e voltar:
tem mais ta-re-fa pra fazer.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Quanto pesa uma bandeira? - parte 2.




As noites más dormidas, os não almoços e não jantares. Cruzar Estados, às vezes oceanos. As manhãs e tardes de passeio substituídas por assembleias e atos. Às vezes cheio, às vezes vazio.

Daí chega o dia. E uma vitória. Duas. Três.

E mais um que se convence que a bandeira deve ser maior. E mais uma. Dois, duas.  Três, milhares...
Os tais milhares.
Amanhã vai ser maior.
Amanhã vai ser outro dia.

E que o futuro seja de liberdade plena, enfim.




- - -

E olhando o oceano e a cidade de Natal, em meio a uma conversa com um companheiro, sobre as lutas e a dureza da vida, pensava: 
"Mas eles tomarão a cidade."

"É bem possível, Dario, que sejamos fuzilados no fim de toda essa história. Duvido de hoje e de nós. Você, ontem você transportava fardos no porto. Curvado sob a pesada carga, você seguia com um passo elástico  as tábuas oscilantes entre o cais e a entrecoberta de um cargueiro. Eu, eu arrastava correntes. Expressão literária, Dario, pois só se usa uma matrícula, mas é igualmente pesada. Nosso velho Ribas do comitê vendia  colarinhos postiços em Valença. Portez empregava seus dias a moer pedregulhos em mós mecânicas ou a perfurar rodas dentadas de aço. O que fazia Miro com sua suavidade e sua musculatura felina? Engraxava máquinas num porão de Gracia. Na verdade, somos escravos. Tomemos esta cidade, mas olhe-a, esta cidade esplêndida, olhe essas luzes, esses fogos, escute esses sons magníficos - carros, bondes, músicas, vozes, cantos de pássaros e passos, passo e o murmúrio indiscernível dos veludos, das sedas -, tomar esta cidade com estas mãos aqui, nossas mãos, é possível? Você riria bastante, Dario, se eu lhe falasse assim em voz alta... Você diria, abrindo suas grandes mãos peludas, fraternais e sólidas: ´Sinto-me capaz de tomar tudo. Tudo.´. Assim sentimo-nos imortais até o momento em que não sentimos mais nada. E a vida continua quando a gotícula que somos retorna ao oceano. Minha confiança aqui se reúne à sua. O amanhã é grande. Não teremos amadurecido em vão essa conquista. Esta cidade será tomada, se não por nossas mãos, pelo menos por mãos parecidas com as nossas, mas mais fortes. Mais fortes talvez por terem se endurecido mais, devido à nossa própria fraqueza. Se somos vencidos, outros homens, infinitamente diferentes de nós, infinitamente parecido conosco, descerão esta rambla num crepúsculo semelhante, daqui a dez anos, daqui a vinte anos, isso realmente não tem nenhuma importância, meditando sobre a mesma conquista: pensarão talvez em nosso sangue. Já imagino vê-los e penso no sangue deles que também correrá. Mas eles tomarão a cidade."
Victor Serge, Memórias de um Revolucionário 
(esse trecho é um trecho que ele escreve em "Meditação sobre a Conquista")


O primeiro texto com esse título, clicando aqui.

terça-feira, 12 de junho de 2012

um, dois clichês

 você que tem
nas tuas mãos
meu choro de mulher
tem meu ver
o meu sonhar, o que quiser"

- eu sou um clichê
ela assume, quase como um desabafo. se é pra ser, que seja de forma assumida. como se tivesse saído do armário - o armário dos alternativos bem-resolvidos e autênticos. 
- gosto de por-do-sol na praia, gosto de arrancar os pedacinhos de cola na mão e às vezes os coloco de propósito na mão. gosto de cantar no chuveiro, amo como se fosse a primeira e a última vez, sinto ciúmes... - ela continua, como se agora que havia assumido, o pior já teria se passado e então divertia-se enumerando seus pequenos grandes prazeres e suas pequenas grandes dores. 

e segue citando o fato de ser insatisfeita com seu corpo como toda mulher, de querer sim ser gostosa. que se preocupa com seu facebook. sua voz alterava enquanto elencava teus clichês e sorria.

um silêncio se fez, o rosto se fechou e esboçava então uma tristeza profunda, um certo desapontamento, uma frustração. como que pra terminar, respira fundo, e confessa, agora: sou mesmo um clichê. me faço de durona e decidida, tenho respostas prontas e ácidas, tenho cara de brava; quando o que quero é poder deitar no teu colo e não ter medo de ter medo, sabendo que estarás ao meu lado.

ele sorri do jeito meigo da moça. de prontidão, responde:
- você não é clichê. você é tipo único. 

um suspiro discreto. saber que ela não correspondia às idealizações construídas com o tempo por ele não era, de forma alguma, frustrante. apaixonou-se novamente, e agora pelo ser humano que ela era, pela sua beleza bruta, pela sua honestidade e porque, de fato, ela tinha os seus momentos típicos.

enfim, como um bom clichê, sentiu-se feliz por ser útil, torcendo para que ela deite em seu colo mais vezes - que seja todos os dias, que fosse por uma vida.
como dois clichês apaixonados, seguiram felizes, agora livres de receituários, já que os filmes clichês não contam como a história continua depois do final feliz.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

diálogos: preguiça e carência

- escreve um artigo de jornal pra mim?
- não...
- um panfleto?
- não...
- então faz uma carta de amor, vai!

sábado, 7 de abril de 2012

leminskando

éramos dois estranhos ao telefone.
pensei que era engano, mas estava certa:
a nossa ligação está péssima.
 
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