sábado, 8 de agosto de 2009

O espírito paternalista empresarial dos professores

Há tempos tenho vontade de falar disso.
Entrei na UNIFESP em 2007, faço parte da segunda turma do Campus Baixada Santista. Desde que entrei, sinto um comportamento esquisito da maior parte do corpo docente. A princípio, pensava ser algo meio paternalista. O REUNI atacando a Universidade, depois disso o reitor corrupto, a lenta construção do prédio, os problemas financeiros, o vestibular unificado, e agora o projeto de lei que tem como proposta desmembrar o Campus Baixada Santista e fazer, junto com outros cursos bizarros, a Universidade Federal do Litoral Paulista. Tudo isso acontecendo e os professores dizendo:
- Calma, está tudo bem. Somos excelentes. Não somos reconhecidos pelo MEC, os professores que deverão dar aula esse ano não chegaram, não temos onde dar aula pra vocês, o reitor está roubando, agora para passar aqui as pessoas só deverão prestar ENEM, querem trocar as placas da nossa Universidade em prédio alugado e acrescentar mais uns cursos, mas está tudo bem. Vamos para os microscópios?

Ingenuidade ou não, achava ser algo paternalista, meio protegendo "desse mundo cruel". Algo do tipo: a situação está desesperadora, mas pobre estudantes! Tão jovens, tão sonhadores... como direi para esses olhinhos brilhantes e sedentos de conhecimento que as coisas são difíceis?

Com o tempo, posso ter endurecido, envelhecido, e com isso posso tanto ter ganhado mais experiência como apenas perdido a confiança nas pessoas, mas o ponto é que passei a olhar esse comportamento numa lógica mais empresarial. Algo do tipo:
- Ah! Esses estudantes. São jovens, sonhadores, sedentos de conhecimento... mas sabemos também o quão monstrinhos podem ser. É melhor dizer que está tudo bem, não queremos atrapalhar a nossa indústria-de-futuros-profissionais-da-saúde.

Então a situação fica bem difícil. É até hipocrisia esse comportamento dos professores e reitoria diante da reação dos estudantes. Agem como se nós estívessemos contra a Universidade, quando fazemos barulho. E eles fazem pose como se estivessem a protegendo, escondendo os podres debaixo do tapete e fazendo cara de paisagem diante de tanta corrupção.
Não sujam a mão fazendo as besteiras (pelo menos não todos), mas também não querem sujar a mão para limpar a bagunça.

Olham com cara feia: esses estudantes baderneiros. Fazem bagunça, fazem barulho.
Enquanto isso, o patrão deles compra mala na Disney com o cartão corporativo. Quietinho.

Olha só que absurdo! Parando de ter aula? Pedindo refeitório? Eles vem pra cá pra estudar ou pra ter babá? (acredite, isso não é uma frase minha. infelizmente.)
Enquanto isso, os professores que deveriam dar aula para a primeira turma não chegam. Motivo: esqueceram de mandar o edital. Esqueceram de divulgar direito.

É. Vivemos num mundo corrompido, invertido, de cabeça pra baixo.
E para quem vai contra isso, tem sempre a polícia para manter a ordem.

5 comentários:

Tami disse...

Infelismente compartilho com sua segunda visão empresarial.
A universidade acaba servindo para isso mesmo,ser mais uma institição para manter o status quo da sociedade burguesa.E se falamos, não só a polícia aparece para manter a ordem,mas as burocracias acadêmicas cotidianamente fazem esse trabalho, com os docentes, com seus aparatos.
Quando reivindicamos a universidade socialmnte referenciada,podemos cometer um erro se não fizermos um recorte de clsses,porque acabamos sujeitando que o que produzimos também sirva ao status quo que a burguesia sustenta,retendo assim as tecnologias e os meios de produção.
Só o conhecimento voltado para os filhos da classe trabalhadora e pautado nas necessidades dessa classe é capaz de alterar não só o satus quo da sociedade e propor o socialismo,mas também o que se entende hoje por universidade.
Até lá, teremos intervalos de vitórias parciais e longos períodos de derrota.

Larissa disse...

"O mundo é uma salada russa"
Salada cujo tempero já está desgastado...já anestesiou alguns paladares, enquanto outros se deleitam ainda...
O que fazer?! Parecemos estar numa cegueira...
...
eu sabia!!!
...
Sabia que Saramago não tinha "mago" à toa no nome...
Podemos então nos utilizar do tato...Falta tato nas coisas...
Falta encostar na pele do outro...
Não dá pra ser como antes...
Temos que abrir espaço...
Sempre acho que a arte traz a ideia.
Qto a levar na cabeça? Parece bobo, mas isso diz muito...
"E da luta não me retiro. Me atiro no alto e que me atirem no peito...da luta não me retiro..."

Kinna disse...

"Não sujam a mão fazendo as besteiras (pelo menos não todos), mas também não querem sujar a mão para limpar a bagunça."

Muito, muito emblemática essa frase. Poderia dar um cartaz, Bel.

Fernando disse...

É muito estranho esse mundo contemporâneo! Parece que tudo virou Mc Donald's!
Tudo é feito pra entregar o mais rápido possível um "serviço", mas como um bigmac só serve pra engana o estomago, logo, logo teremos de encarar o vazio que está sendo feito de nossa formação
Chega de transformar a educação em lanche!
Temos de colocar a mão na massa!

Leandro disse...

Espírito paternalista? Eu diria espírito empresarial-liberal mesmo... ora, professores estão numa "casta" superior a de estudantes, ainda mais meros estudantes da graduação.

Quantos professores doutores iluminados vieram das classes menos favorecidas, e quantos já vieram de famílias com posses e toda condição para que seus filhos estudassem até os 28 anos sem precisar trabalhar?

Para além de determinismos economico-psicológicos relativos a formação dos nossos professores doutores, não importa, professor está numa posição e aluno em outra.

Uma coisa são os estudantes pedindo mais verbas, a saída do reitor corrupto e lutando pela universidade. Outra coisa são professores que ainda estão pendentes na sua efetivação como concursados pelo governo federal e que se peitarem reitores, diretores e coordenadores, poderão ter seus cargos ou privilégios cortados.

O mundo não é bonito mesmo. O poder seja político, seja economico, está por todos os lados, e na relação professores-estudantes, não seria diferente.

 
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