quinta-feira, 15 de março de 2012

nada por mim

"me deixa em paz"
você pediu.
seus olhos brilhavam.
sorriso que faz boca doer.
e eu te dei paz.

foram dias e dias de alegria, de vida viva.

"me deixa em paz"
você pediu novamente.
mas dessa vez teus olhos não brilhavam,
tampouco a boca doía pelo sorriso.
e eu te dei paz.

fui embora e não voltei mais.

segunda-feira, 12 de março de 2012

dança

e então de repente era nós dois e mais ninguém ali. o volume da música não estava tão alto quanto a força dos seus olhos, que gritavam nos meus. brilhavam de forma tal que eu não precisava de nenhuma luz ali. nossos olhos guiavam para onde queríamos ir: hipnotizados, caminhamos lentamente e de forma precisa em direção um ao outro. ainda que já nos conhecíamos, pouco a pouco descobrimos como nos olhar como se fosse pela primeira vez. seu olhar trazia coisas novas - eles sempre reservam novidades.

e então de repente era nós dois e mais ninguém ali. o volume da música não estava mais alto que nossos corpos que conversavam atentamente. você passou a ponta dos dedos pelo meu braço inteiro, desde os ombros, até encontrar as pontas dos meus dedos também. então segurou a minha cintura, e era como se suas mãos estivessem conversando. foi chegando lentamente, primeiro com as pontas dos dedos e depois foi possível sentir tua mão inteira deslizando até que.
- te quero. - elas diziam, segurando forte.
e meus braços caíram perfeitamente em volta de seu pescoço, como se desde sempre soubéssemos que era seu pescoço que eles envolveriam um dia.
- eu me entrego. - diziam eles, acomodados.
e minhas pernas intercalaram as suas e de repente dançávamos em um passo próprio, que não era doispraládoispracá.
- estamos juntos. - todas as quatro pernas anunciavam, em coro.
nossos corpos a essa altura tagarelavam: ombros, coxas, peitos, barrigas... aos poucos podíamos sentir mais e mais um ao outro, e era tanto o desejo que havia em sentir cada parte do seu corpo que quando finalmente o toque ocorre dava pra sentir em cada centímentro uma mistura de êxtase e conforto.

e então de repente era nós dois e mais ninguém ali. o volume da música não estava mais alto que nossas bocas que se rendiam àquele beijo. nossos lábios encostavam devagar, como se não existisse tempo. desrespeitar a pressa no sistema capitalista - aquela era nossa militância naquela hora, e fomos extremamente subversivos. pouco a pouco sentíamos as bocas se encostando, e elas se encostavam tão devagar, passeando entre si que pareciam transitar metros de distancia. até que devagar com a ponta da língua em seus lábios te convido pra um beijo. você aceita e então era como um mergulho delicioso na água gelada num dia de verão.

e se havia gente, e se havia horário, e se havia despedida, e se havia expectativa, ou medo, ou coisas pra fazer... tudo aquilo por alguns instantes não importou. naquele momento era nós dois constatando que do nosso jeito estávamos aprendendo a dançar de um jeito próprio e singular com a música que nos dão, mesmo que faça parte também fugir do compasso vez ou outra, se assim acharmos mais gostoso.

sexta-feira, 2 de março de 2012

sobre o comentarista

a universidade está rodeada de comentaristas. a instituição historicamente conhecida como o espaço de produção de conhecimento, produz atualmente grandes-comentaristas-de-coisa-qualquer. 
pergunte a um deles sobre aborto, que trarão um artigo científico ótimo com dados estatísticos. 
imparcial, é claro (mas que provam seu ponto de vista).
pergunte sobre a tropa de choque que chega para desapropriar moradores, e eles darão uma resposta acadêmica exemplar - ponderando "os dois lados". chegarão a belíssima conclusão de que nem um, nem outro estavam certos. ambos estavam errados. certo é ele, é claro, o comentarista.
pergunte também sobre a educação, a saúde, o meio ambiente, a fome, a miséria... e ele dirá: realmente, está um caos. e trará explicações excelentes de como o governo é ineficaz, as pessoas são ignorantes e o mundo está permeado de injustiças. terá uma ótima citação que diga que as coisas de fato vão mal, mas que "veja bem, não podemos também cair pra o outro lado de...". certamente envolverá nietzsche no meio.

o comentarista terá resposta para tudo. saberá inclusive chamar de tolo e ingênuo aqueles que tentam superar essas injustiças, analisando e justificando porque cada ação dele será em vão. 
só não pergunte ao comentarista o que fazer. ele sabe analisar as coisas muito bem, mas não quer se meter a dizer o que os outros devem ou não fazer - afinal, isso é autoritário. 

então apenas assiste a tudo, e comenta.

imagina...!

imagina se.
só imagina.

porque tem caso que é melhor só imaginar.
tem caso que imaginando é mais divertido.
tem caso que imaginando é menos perigoso.
não que minha imaginação seja segura - ela não é, e leva para caminhos tortuosos e complexos, nada lineares. talvez por isso tenha medo de te colocar pra viajar dentro dela comigo. pior ainda saber que o convite pra entrar na minha é um convite, por consequência, talvez, pra entrar na tua - e gostar de você desse jeito (e desse teu jeito...) é estar em duas montanhas-russas ao mesmo tempo, que cruzam e distanciam o tempo todo - porque temos tudo e nada em comum. imagina só nós dois fazendo essa viagem em um só carrinho!

e eu não falo.
e eu não faço.
e eu não, não, não. - e você adora dizer que eu não, não, não, porque torna teu sim, sim, sim mais poético - mesmo que para isso você tenha que abafar todos os meus "sims" pra você.

eu não nego meu não, porque sei que você sabe que não é simples assim - coisa de dizer sim ou não. você diz que eu digo não pra tua cerveja, pra um simples caminhar na praia, mas sabe que tua cerveja e teu simples caminhar na praia vem com muito mais coisa - é uma passagem pra montanha-russa cheia de poesias, e brigas bonitas e intensas e vida de dores e doçuras. é convite pra intensidade.

mas imagina. ah... imagina!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

choveu, molhou, parou, secou.

e de repente era como se nada tivesse acontecido.

poderia ser mais frequente do que o comum naquela cidade quente, mas para ela aquilo nunca fez sentido: todo passado deixa uma marca, e como pode chover tanto e a vida seguir, assim? há de ter ficado alguém com seu cabelo molhado, ou um guarda chuva que não resistiu e quebrou.

desde criança guarda pequenas coisas, anota alguns detalhes, para que nunca se esqueça das dores e alegrias, mesmo as pequenas. medo de esquecer, medo de não conseguir transformar em aprendizado aquilo que viveu, sentiu, sonhou. talvez era isso. cuidava de sua memória como quem tentava cuidar de seu futuro.

e então amou uma vez. e guardou cada memória. e amou a segunda, a terceira, a quarta... de repente tantas histórias foram se juntando, e a bagagem já era pesada demais para se arrastar. mas insistia em levar tudo - os papéis, os sorrisos, as lágrimas, os presentes, as músicas, os filmes, os livros, as conversas, os bilhetes, as saudades, os ingressos, embrulhos, imbróglios. de repente o passado foi sufocando todas as possíveis novidades fazendo com que elas fossem pra um "lugar comum" do gostar. de repente ninguém tinha mais disposição pra carregar com ela aquela bagagem pesada de velhas novas histórias.

e então quando amou de novo tentou experimentar lançar-se um pouco no desconhecido. se permitiu conhecer uma nova canção junto com. a ler um novo poema. a escrever uma nova história, por fim (ou começo?). decidiu por não carregar mais aquela bagagem pesada. algumas coisas jogou fora, outras guardou numa caixinha velha, que talvez nunca mais abra, mas é bom saber que algumas memórias ficaram ali guardadas.

até que então, amou como nunca havia amado antes.
enfim, permitiu outrar-se. não era a proposta, desde o início?

sussurros de amor que vem...

ele diz, com um olhar profundo de menino:
- isso parece que não é real...
ela responde, com um sorriso e cara de experiência.
- isso é mais real que muita coisa.
silêncio. em seguida, ele retruca, como quem entende tudo:
- materialista!

(e ela imagina, então, que meses depois se ele perguntar quando foi que a conquistou, diria sem hesitar que foi com essa resposta)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

e falando de novo em amor...

Mapas.

mapa que eu detesto duas vezes: papel que constata os quilômetros que nos separa. papel que, por ele e outras coisas, te fez ir pra tantos quilômetros longe.

mas detestar mapas, que coisa tola! se não fosse o mapa, se não fosse a tua economia solidária, o meu marxismo... se não fosse o sol, se não fosse torto, se não tivesse o desencontro... talvez a gente não teria se encontrado. é isso que falamos, para nos conformar ou para tornar o negócio mais lógico. não foi destino, mas uma série de pequenas histórias fragmentadas, ou várias histórias que seguem uma linha lógica que fizeram, há pouco mais de um mês, tua geografia e a minha psicologia se encontrarem.

mapas. eu nunca havia reparado neles direito, e agora eu olho pra tentar entender o que te fascina tanto nesse pedaço de papel.

Posso até me acostumar da gente se divertir...

e se temos três dias, ou se esse ano tem mais feriados, ou se os nossos aniversários caem em sábados. e se temos mais um ou dois encontros ou se é pra sempre. e se faltam dez dias, nove ou oito.
acho que posso me acostumar, se todo reencontro tiver sempre cara de sábado. se tiver sol, água de coco. se tiver colo. se tiver corpo. se tiver nossos beijos com olhos, bocas, mãos, pés, pernas.
e a saudade só se torna suportável quando se sabe que em breve o reencontro a matará, sufocará e deixará espaço só para o carinho.

e por falar em diálogo... (resposta)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

quanto pesa uma bandeira?

há os dias alegres, em que digo: a solidariedade, o companheirismo, a força, o entendimento de não estar sozinho, indignado com tamanhos absurdos do mundo. a sensação de vitória, de conquista de um grupo, de uma  classe, de um povo. a sensação de ter escrito a história com as próprias mãos.

mas não, não venho de dias alegres. não são tempos alegres. para além do espelho, vejo olhos cansados. olho, braço, perna, corpos. corpos cansados resistindo, mantendo erguida aquela - ou aquelas - bandeiras.
é tempo de corpo cansado.
             de companheiros ameaçados, violentados, desaparecidos, assassinados.
             de dor de quem não come bem, não dorme bem, não vive bem há tempos.

há os dias alegres, em que leio aqueles que podem trazer experiências passadas, lições diversas de tempos distintos. dias de sair com as companheiras e companheiros em marcha, de puxar palavras de ordem com a força que não é tua, mas de todos aqueles.

mas não, não venho de dias alegres. tenho tido pouca força para o berro, pouco ânimo para os livros. é tempo de lembrar que isso não é uma brincadeira, ainda que há tempo para o riso. é tempo de lembrar que isso não é teoria e que isso acaba até em morte.

luta - ou guerra - de classes.
chamam de opção. opção de classe. é bonito, mas não sei bem como é feita essa escolha.
há erros, sem dúvida, dos dois lados.
há mãos, pernas, corpo sujo de sangue dos dois lados.

é uma luta, é uma guerra, que se espera? mas entre estar no meio daqueles que se sujam de sangue buscando a liberdade do povo e aqueles que o fazem para buscar silenciar aqueles que denunciam atrocidades, que buscam calar e sujeitar trabalhadoras e trabalhadores que buscam livrar-se de alguma forma da condição de exploração a qual são colocados brutalmente, eu fico com o primeiro grupo. opção de classe. é isso?
 
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